terça-feira, 15 de julho de 2008

REFLEXÕES DE UMA ALIENIGENA SOBRE O ESTRANHO COMPORTAMENTO DOS SERES HUMANOS PARTE VI - OS ILHÉUS, UMA FÁBULA-FOLHETIM N.o 01



Como hoje o dia está ameno, e, eu, “mais ou menos”, contarei uma história ao estilo de folhetim, isto é, dividida em várias partes, posto que é um “conto muito longo e que nunca termina”....esta frase tomei de empréstimo de uma outra que contarei depois... em diferente ocasião... Os humanos adoram coisas assim...É natural...é parte de seu histórico de vida...a criação dos mitos e fábulas, pertencem ao imaginário de qualquer povo, em qualquer lugar do Universo. Meu povo sempre se serviu mais das histórias e menos de exercícios intelectuais, para, através delas, tornar possível a preservação de algumas verdades afim de serem retransmitidas e trabalhadas ao longo do tempo nos diversos estágios de evolução. E, embora existam as “fábulas comuns, de entretenimento”, largamente consumidas e mescladas a um material mais raro, são tidas estas pelos estudiosos da consciência, como uma forma de “arte degenerada e inferior”. Eu sou um contador de histórias, esta é uma de minhas funções, se não me engano já lhes disse isso, embora já tenha pensado em pedir uma despensa desta função, o que, em verdade, seria de minha parte uma extrema ousadia...não posso escolher só o que me convêm...para que um ensinamento faça o seu efeito sobre um aprendiz é preciso que o mesmo aceite as funções que lhes são impostas... Bom...vamos a história...Os Ilhéus, segundo Idries Shah, é uma fábula sufi que fala justamente sobre a condição humana. A fábula, seguindo o conselho dos antigos, foi devidamente adaptada e atualizada, coisa que deve acontecer a toda história, levando-se sempre em conta três fatores: “o tempo, o lugar e as pessoas”.




OS ILHÉUS [1]
UMA FÁBULA




“O homem comum se arrepende de seus pecados;
o eleito se arrepende da insensatez deles.”
(Dh’l-Nun Misri)


Era uma vez, não muito distante daqui, um país composto por uma sociedade ideal, que vivia na mais plena e perfeita harmonia. As pessoas que a compunham não sentiam o medo que conhecemos e sentimos hoje em dia. Em vez de incerteza e vacilação, havia decisão, determinação e meios mais completos e produtivos de se expressar. E, assim, sem empecilho, sem nenhum tipo de tensão ou pressão que a humanidade tem em conta e até considera fundamental, essencial ao seu progresso, a vida dessa gente era muito mais rica, porquanto outra espécie de aspiração ou necessidade, mais nobre, mais elevada, cobria aquelas outras... Vivia assim, portanto, essa gente,um modo de existência levemente diferente. Pode-se mesmo dizer que as nossas percepções atuais são apenas variações cruas, temporárias, das percepções reais, verdadeiras, da qual era dotada. Suas vidas eram realmente VIDAS, não vidas semi-vividas. Este era o povo de El-Ar.

Um dia, o líder de El-Ar descobriu que o país se tornaria inabitável por um longo período, pelo menos por uns vinte mil anos. Era preciso agir e planejou-lhes a fuga, mesmo sabendo que seus descendentes só poderiam retornar para casa após inúmeras tentativas.

Depois de tanto procurar, encontrou para o seu povo um bom lugar, uma ilha, levemente parecida, em todas as suas características, com o seu país natal. Por causa do clima, um tanto diferente, e, pela recente situação, os recém-chegados sofreram uma transformação que os tornou física e mentalmente capazes a se adaptarem às novas circunstâncias. As percepções refinadas tiveram que ser modificadas, substituídas por outras mais grosseiras, tome-se como analogia as mãos de um trabalhador manual que se tornam mais calosas em resposta ao trabalho que exerce. A fim de amenizar a dor que o permitiria comparar os dois estados, o antigo e o novo, o povo foi levado a se esquecer quase que totalmente do passado, restando somente uma vaga lembrança, mas o suficiente para ser despertada quando chegasse a hora.

Ao todo, o sistema era bastante complicado mas muito bem arrumado. Os órgãos por meio dos quais o povo sobreviveu neste lugar foram transformados em órgãos de prazeres físicos e mentais. Quanto aos órgãos que no país natal funcionavam plenamente, foram postos em um tipo de inatividade temporária, ligados aquela vaga lembrança de algo que, de vez em quando, insistia em surgir.

Devagar e com esforço, os imigrantes foram se instalando, adaptando-se às condições oferecidas pelo ambiente. Os recursos da ilha eram de tal forma que, aliados ao esforço e a um tipo especial de orientação, possibilitariam ao povo uma nova fuga para uma outra ilha, na viagem que empreenderiam de regresso ao país de origem. Esta foi a primeira de uma série de ilhas em que se contatou gradual adaptação.

A continua “evolução” desse povo, recaiu sobre os ombros daqueles mais capacitados de arcarem com ela; alguns poucos indivíduos, já que, por forças das condições, o povo em geral não conseguia reter os dois tipos de conhecimento em suas consciências sem entrarem em conflito, o esforço era grande demais, revelando-se mesmo, enfim, virtualmente impossível, então, para maior segurança, certos especialistas guardavam a “ciência especial”. O “segredo”, ou seja, o meio ou método para fazer a transição, não passava mais do que o conhecimento de habilidades marítimas e sua forma de aplicá-las. Assim, para se fugir dali era preciso que houvesse um instrutor, um material básico, gente, esforço e compreensão. Havendo essas coisas, o povo poderia aprender a nadar e construir navios.

Os primeiros encarregados das operações de fuga deixaram claro para todos que antes de aprender a nadar ou mesmo até ajudar a construir um navio era necessário um certo preparo. Durante um tempo tudo transcorreu normalmente. Entretanto, um homem, tido, na ocasião, como carente das qualidades necessárias se rebelou contra essa ordem e desenvolveu uma ideia genial. Ele notara que o esforço para fugir impusera um fardo bastante pesado e até mesmo aborrecido sobre o povo, mas, que, todavia, mostrava-se, ao mesmo tempo, propenso a creditar no que lhe contavam sobre os modos e os meios levados a efeito para se fugir dali. O homem percebeu que poderia tirar vantagens disso, obter poder e ainda vingar-se daqueles que o haviam humilhado, assim pensou apenas explorando as duas situações de fato. Simplesmente se ofereceria para tirar-lhes o fardo das costas afirmando que não havia, em verdade, fardo algum e então, declarou o seguinte: “Não é necessário que o homem tenha que primeiro integrar a mente e treiná-la da forma que lhes disseram, pois a mente humana já é algo estável, contínua e consistente. Foi lhes dito que precisavam se transformar em artífices, para poder construírem um navio... pois lhes digo eu que não precisam ser artífices, não precisam de navio...A um ilhéu, como você, como eu, bastam somente a observação de regras bastante simples para sobreviver e permanecer unido à sociedade. Através do exercício do bom-senso, inerente a todos, podemos alcançar qualquer coisa de fato nesta ilha, nosso lar, que a nós pertence como propriedade e herança”.

O rebelde tagarela despertou grande interesse com esse discurso em meio ao povo. E provou a veracidade de sua mensagem, dizendo: “Se há mesmo alguma verdade em construir navios e em nadar, deveriam nos mostrar navios e nadadores que foram e voltaram”. Pronto! Um desafio fora lançado aos instrutores que não o puderam enfrentar, já que o desafio baseava-se numa suposição sofistica que jamais, o povo idiotizado, captaria. Mas, fato é que, na realidade, nunca havia voltado nenhum navio da outra terra. E os nadadores que regressavam eram submetidos a uma readaptação que os tornavam invisíveis à multidão. Por conta disso, o povo insistiu junto aos instrutores para que estes lhes fornecessem uma prova que lhes demonstrasse que tinham razão. Então, numa tentativa de argumentação contra os rebelados, assim disseram os encarregados das construções navais: “A construção de navios, é, antes, uma arte e um oficio, que, para empreendê-la a contento, exige o aprendizado e o exercício de técnicas especiais, e, que juntas, formam uma atividade integral que não pode ser estudada por partes como vocês estão a sugerir. Esta atividade contêm um elemento impalpável, a baraka, do qual advêm a palavra ‘barco’ – navio. Baraka significa ‘a sutileza’ que não há como lhes ser mostrada”.

Ao ouvirem isso, os revoltosos puseram-se a gritar: “Tolices e mais tolices...sandices...arte, oficio, totalidade, baraka... bah...querem apenas nos enganar”. Desse modo, pegaram todos os artífices que puderam encontrar empenhados na construção de navios e os enforcaram. Um novo evangelho libertador foi proclamado e recebido com bastante entusiasmo pelo povo. O homem, enfim, chegara à conclusão de que estava maduro! A impressão que tinha, ao menos por ora, era a de que fora isento de qualquer responsabilidade.

A maior parte dos outros modos de pensar foi imediatamente absorvida pela sua simplicidade, conforto e conceito revolucionário e passou a ser considerado um principio básico, nunca, jamais contestado por um ser racional, entendendo-se por “racional” qualquer um que, como pessoa, se ajustasse perfeitamente a nova teoria em que se fundamentava agora a dita sociedade. As idéias opostas ao novo estatuto foram descartadas, posto que, rotuladas como fora de propósito, “irracionais”, ruins. Daí em diante; mesmo na dúvida o individuo deveria suprimi-las ou afastá-las porque precisava se adequar a qualquer custo e dessa maneira ser reconhecido como racional. De mais a mais, era fácil ser um racional, para isso bastava ao sujeito aderir aos valores da sociedade vigente, além do quê, o que mais havia eram abundantes provas da veracidade da racionalidade, dado fosse que não se pusessem a pensar na vida além das cercanias da ilha.

A sociedade, agora, temporariamente em equilíbrio, parecia proporcionar, pelo menos no que dizia respeito a partir de seu próprio ponto de vista, no seu entender, uma integração coerente, posto que, uma vez fundamentada na razão somada a emoção, fazia parecer realmente que ambas eram totalmente verossímeis. Desejam um exemplo? O canibalismo era aceitável, pois estava muito bem respaldado por argumentos racionais, já que se descobrira que a carne humana era boa para consumo. A comestibilidade é uma característica do alimento, portanto, o corpo humano era alimento e sendo assim, comestível. Percebendo, porém, a deficiência desse raciocínio e com a intenção de compensá-lo, os novos pensadores fizeram uso de um artifício: se controlaria o canibalismo no interesse da sociedade. O meio-termo seria a marca registrada do equilíbrio temporário, mas, de quando em vez, alguém punha em destaque um novo meio-termo e a luta entre a razão, a ambição e a sociedade gerava alguma nova regra social.

Como as habilidades necessárias para se construir navios não possuíam dentro da sociedade uma aplicação lógica, óbvia, o esforço requerido e empregado foi considerado fora de contexto, absurdo, sendo, diligentemente, posto de lado uma vez que os barcos eram descartáveis, já que não havia mesmo aonde ir. A pseudocerteza, substituta da verdadeira certeza, faz parte de nosso cotidiano, como o fato de supor que o amanhã chegará e que até lá ainda estaremos vivos. Ao fazermos certas suposições somos levados a “provar” tais suposições, todavia os nativos da ilha aplicavam a pseudocerteza em todos os aspectos da vida.

A grande Enciclopédia Universal da Ilha, escrita e organizada por estudiosos, nobres e respeitados filósofos, continha dois verbetes que nos mostram como funcionava o processo. Os sábios, munidos de sincera boa vontade, espalhando o saber da única nutrição mental que estava ao alcance, haviam instituído um certo tipo de verdade:

NAVIO: Desagradável. Imaginário método de transporte, em que falsos sábios e ilusionistas do povo, garantiram poder “cruzar a água”, assertiva que hoje em dia se comprovou cientificamente absurda, impossível. Não existe na ilha nenhum material conhecido que seja impermeável à água e com o qual se possa construir “navios” em tais condições, sem tocarmos na questão de se saber ou não se há um destino além da ilha. É um crime capital apregoar sobre a construções de navios punido através da Lei XVII do Código Penal, subseção J, “A proteção dos crédulos”. Definida como forma extrema de escapismo mental, A MANIA DA CONSTRUÇAO DE NAVIOS, é sintomático, claramente encarado como um problema de desajuste. É obrigatório pelo sistema constitucional que todos os cidadãos, que, portanto, revestidos dos deveres que lhe são impostos, notifiquem as autoridades sanitárias competentes se ao menos vierem a suspeitar de que existe esta trágica condição em qualquer individuo. 

Veja: Natação; Aberrações mentais; Crime (Capital).

Leituras: Por que os “navios” não podem ser construídos, de Smith, J., Monografia da Universidade da Ilha, numero 1151.

NATAÇÃO: Repugnante. Método supostamente usado para impulsionar o corpo na água para evitar afogamento, normalmente visando objetivo de “alcançar um lugar fora da ilha”. O “aprendiz” dessa arte repreensível, extremamente repugnante, tinha que submeter-se a um grotesco ritual de iniciação: primeiramente, devia deitar-se no chão, mover os braços e as pernas em resposta às instruções do “professor”. O conceito, por inteiro, tem como base o anseio dos pretendidos “professores” de dominar e manter os crédulos em tempo de barbárie. Em período recente, o culto tornou-se um tipo de mania epidêmica.

Veja: Navio; Heresias; Pseudoartes.

Leituras: A grande loucura natatória, de Brown, W., 7 vols., Instituto da Lucidez Social.

As palavras “desagradável” e “repugnante” eram constantemente usadas na ilha para assinalar qualquer coisa que conflitasse com o “Agradar”, o novo evangelho proclamado, assim denominado. 

A intenção real, não dita, mas implícita “por debaixo dos panos”, era que, no geral, as pessoas que compunham a comunidade se agradassem somente do que o Estado poderia se agradar. Agradando ao Estado estariam agradando a si mesmos, Estado e povo, unidos num só coração. O Estado era o povo, o povo era o Estado.

Sendo desse modo, não era de se espantar que, desde as mais remotas, primitivas eras, a maior parte das pessoas se enchesse de pavor só de pensar em abandonar a ilha, como sói acontecer com prisioneiros que, após muito tempo, aprisionados, a ver o sol nascer quadrado, se vêem na iminência de serem libertados. Mundo vago, sombrio, desconhecido, ameaçador era qualquer outro lugar “fora” do cativeiro. Não era uma prisão a ilha, era antes uma jaula com barras invisíveis, porém, muito mais eficientes que aquelas que se podiam ver.

A sociedade insular foi se volvendo dia a dia mais complexa e só poderemos, dentre as suas principais características, examinar umas poucas. Vejamos a literatura...muito rica, que, além das composições culturais, havia um número inimaginável de edições que explicavam os valores e realizações da nação. E havia ainda um sistema de ficção alegórica que mostrava o quão terrível poderia ter sido a vida, se a sociedade insular não tivesse se adaptado ao atual e tranquilizador estilo de vida.

Os antigos instrutores, de tempos em tempos, tentavam fazer por onde ajudar os membros da comunidade a escapar. Em favor do restabelecimento de um clima em que os construtores de navios pudessem prosseguir em seu trabalho, os Capitães, imbuídos desse propósito, acabavam por se sacrificarem, conforme requeria a necessidade.

Como era comum na ilha, dava-se facilmente para quase tudo, explicações relativamente plausíveis, portanto, todos estes esforços eram interpretados por historiadores e sociólogos, segundo as suas percepções, com referências às condições da ilha. Os estudiosos não faziam qualquer idéia, nem imaginavam, um possível contato exterior dessa sociedade extremamente fechada em si mesma. Os princípios de ética não estavam envolvidos, uma vez que os doutores continuavam a estudar com veraz sinceridade aquilo que, de fato, lhes parecia ser verdade. “Que mais, além disso, podemos fazer?” perguntavam a si, pondo ênfase na palavra mais, tentando dar a entender assim, que, a alternativa poderia ser um esforço de quantidade. Sem repostas adequadas, perguntavam-se uns aos outros: “Que outra coisa podemos fazer?” Supondo-se que, outra coisa, pudesse conter uma resposta. Há de se concluir depois disto, que aos ilhéus, oferecia-se um campo inteiro, enorme, para se pensar, agir e exercer seu domínio dentro de seu pequeno e envolvente mundo. A impressão que se tinha era que, as variações de idéias e diferenças de opiniões, ofereciam plena liberdade no pensar que, então, era bastante estimulado, desde que não beirasse o “absurdo”. Também se permitia liberdade de palavras, que, porém, eram de pouquíssima utilização sem o desenvolvimento da compreensão, que não era levada a cabo. Levando em conta esses fatores, os navegadores, tiveram que incluir em seu trabalho, outros aspectos, relevantemente de acordo com as mudanças constatadas no seio da comunidade, o que deixava a realidade, para os estudantes, mais ainda desconcertante, já que eles buscavam acompanhar aos navegadores a partir do ponto de vista da ilha.

Nesta situação caótica, confusa, até mesmo a capacidade de se lembrar da possibilidade de escapar da ilha, algumas vezes, acabava por se transformar em um obstáculo. A emoção consciente da possível fuga não era muito discriminatória e, na maioria das vezes, os ansiosos aspirantes a fujões acabavam se decidindo por um modo substituto de escape. Não era nada útil ter apenas um vago conceito de navegação sem a devida orientação, até dentre os mais promissores construtores de navios, com grande potencial, mesmo estes, os mais ardorosos, dedicados à causa plenamente, eram levados pelo condicionamento a acreditar que já traziam consigo essa orientação, e que há muito estavam prontos, e se alguém ousasse lhes dizer que precisavam de preparação, este alguém virava logo motivo de ódio.

Versões da construção de navios e da natação espalhadas pela ilha, algumas estranhíssimas, com freqüência, excluíam, pela força do número de ansiosos, as possibilidades reais de evolução. Atitudes censuráveis, repreensíveis, tinham os advogados da pseudonatação ou dos navios alegóricos, mercenários, cujos interesses escusos faziam-nos se aproveitarem da situação dos mais fracos, descuidados, que ainda não possuíam a capacidade totalmente desenvolvida para nadar, oferecendo-lhes lições ou passagens em navios que sabiam, não poderiam construir.

A principio, as necessidades da sociedade insular, tinham exigido a criação de certas maneiras eficientes no pensar, resultando isso no que então, chamaram por ciência. Essa maneira admirável de opinar sobre um assunto, do seu jeito de ver, e tão fundamental nos campos em que era aplicado, terminou por ultrapassar, indo muito além do seu verdadeiro significado. O ponto de vista “cientifico”, imediatamente após a revolução “Agradar” ampliara-se tanto, mas tanto, que cobriu toda espécie de idéias e assim, tudo, todas as coisas, que o ponto de vista “cientifico” não abarcasse, passaram a ser denominadas como “não-cientificas”; providencial, conveniente sinônimo de “ruim”. 

Mesmo as palavras eram aprisionadas, agrupadas e automaticamente escravizadas.

Sem a presença de uma atitude harmônica, adequada, os ilhéus, feito àquelas pessoas que, entregues a si mesmas na sala de espera de um consultório, contando somente com seus próprios meios, põem-se a folhear, exaltadas, as revistas disponíveis; assim também eles se concentraram na busca de substitutos do propósito original e final do exílio da comunidade: a realização. Muitos deles conseguiram distrair a atenção de tal maneira, através de atitudes, principalmente, de cunho emocional que acabaram por serem, mais ou menos, bem sucedidos, e embora houvessem diferentes níveis de emoção, não havia como medi-las, não havia uma escala de medição que convinhesse, e, portanto, sem poder medi-las, não havia distinção entre um ou outro tipo; toda e qualquer espécie de emoção, enfim, era considerada “funda” ou “profunda”, tanto fazia, contanto superior e mais “profundo” que a não-emoção. A emoção, valorizada, instantaneamente qualificada de “profunda” que se podia conceber, costumava levar as pessoas a cometer atos extremos, tanto físicos quanto mentais.

A maioria dos ilhéus tinha por hábito, escolher para si, ou permitir que outros escolhessem, metas viáveis, objetivos alcançáveis e, daí, podiam então dedicar-se a um culto após o outro, ou ainda ao dinheiro e à projeção do status social.

Alguns ilhéus, por adorarem certas coisas, se achavam superiores ao resto ; outros, por repudiarem o que supunham ser um culto, sem ídolos e poder, tiravam desse "desapego" o “direito” de escarnecer, zombar, com segurança de tudo o mais.



Os séculos passavam, e, à medida que iam passando, viu-se a ilha atulhada de destroços, objetos desses cultos. O pior de tudo é que esses destroços eram autoperpetuantes, nunca lixo comum. Alguns ilhéus & ilhéus associados, bem intencionados, combinaram e recombinaram estes cultos, que voltaram então a se propagar, constituindo-se esse material, acadêmico ou “inicial”, uma verdadeira mina para o amador e para o intelectual, já que provocava uma sensação de variedade e conforto. 

Multiplicaram-se pela ilha magníficas instalações para o gozo, ou deleite da “satisfação” limitada. De repente, por todos os cantos , apareceram palácios, monumentos, museus, universidades, institutos de saber, estádios esportivos, teatros...a ilha ficou abarrotada...e o povo, naturalmente, sentia deveras orgulho desses recursos, pois, muitos deles eram considerados por muita gente, embora não de forma totalmente clara, como ligados, de maneira geral, a verdade fundamental.

Como parte integrante de algumas destas atividades, em diferentes dimensões, estava a construção de navios, mas, de um jeito desconhecido de quase todos. Em segredo, os navios desfraldavam suas velas, os nadadores continuavam a ensinar natação...as condições da ilha não foram motivos suficientes para desanimar aquela gente dedicada; afinal, ela também viera da mesma comunidade, seu local de origem, não estava dissociada dela nem de seu destino. Tinham entre si laços indissolúveis, entretanto, precisava, frequentemente, se proteger das atenções da população que, fatalmente, poderia atrair, posto que, em outros tempos, fora por demais perseguida. Alguns ilhéus “normais”, por exemplo, tentaram salvá-la de si mesma; outros tentaram matá-la, exterminá-la da superfície da ilha por razões que julgavam igualmente santas, heroicas, sublimes, necessárias... e outros ainda, mesmo desejando desesperadamente por sua ajuda, nunca conseguiram encontrá-la. Tais reações, todas elas, a saber, com respeito à existência dos nadadores, eram resultados da mesma causa, isto é, partiam da mesma fonte, mas, filtradas por diferentes tipos de mentes...todavia, quase todas, porém, em seu entender, sabiam agora em que consistia um nadador, onde se encontrava e o quê estava ele a fazer...

Conforme avançava o progresso, e a vida na ilha ia se tornando cada vez mais civilizada, apareceu uma estranha indústria, mas, claro, impregnada de lógica, dedicada a semear duvidas sobre a legalidade do sistema em que se baseava a sociedade. Esta indústria conseguiu reter as ânsias, as agonias, as perguntas sem respostas, enfim, as dúvidas, alimentadas pelo povo a respeito dos valores sociais, e expô-los a troça, ao ridículo, à sátira...A tarefa poderia apresentar ora um rosto triste, ora um alegre, mas, no âmago, na essência, tornou-se apenas mais um ritual mecânico... a indústria, de potencial valioso, era, comumente, impedida de exercer suas funções realmente úteis, criativas. Pensavam as pessoas, que, ao darem luz às suas dúvidas, ao dar-lhes uma forma de expressão, ainda que temporária, conseguiriam, de certo modo, senão exterminá-las de todo, pelo menos atenuá-las, exorcizando-as até um ponto, que, finalmente parecessem aplacadas. A sátira passou a ser uma alegoria aceitável, significativa, considerada, embora completamente indigesta. Peças, livros filmes, jornais, poemas pasquins e folhetins eram os meios, os veículos utilizados para o seu desenvolvimento, mesmo que uma grande parte desses veículos, atuassem dentro dos campos intelectuais, mais acadêmicos. Para muitos habitantes da ilha, seguir esse culto em lugar dos outros mais antigos, era ou assim lhes parecia, muito mais moderno, progressivo, emancipado...seguir esse culto era estar na vanguarda dos tempos.

Lá e acolá, aqui e ali, vez por outra apresentava-se um candidato a um instrutor de natação, a fazer sua barganha, e, geralmente, o que ocorria, em verdade, era um estereotipo de conversação:
“Quero aprender a nadar”.
“Queres fazer uma troca? Uma barganha?
“Não. Só quero levar minha tonelada de couve”.
“Que couve?”
“A comida de que vou precisar, quando chegar a outra ilha”
“Mas, lá existe comida muito melhor”.
“Não sei...Como posso ter certeza? Preciso levar minha couve”.
“Não vês, em primeiro lugar, que não podes nadar carregando uma tonelada de couve?”
“Então não poderei ir a lugar nenhum. Sem minha couve, não...O que tu chamas de carga, eu a chamo de minha nutrição essencial, imprescindível”.
“Em vez de couve, imaginando uma alegoria, diga-se “suposições” ou “idéias destrutivas”.
“Levarei minha couve a algum instrutor que realmente compreenda as minhas necessidades”.

*****

Ai, ai...esses humanos e suas necessidades imprescindíveis são mesmo um tormento...ou se chora ou se ri...bom...pararemos por aqui...a fábula fabulosa sobre construtores de navios, nadadores e daqueles que tentaram acompanhá-los, com maior ou menor escala de sucesso, ainda não terminou porque ainda há gente na ilha.

A linguagem cifrada é um meio utilizado pelos sufis para transmitirem suas mensagens. Este conto foi escrito no idioma inglês e somente algum tempo depois, traduzido para o português e outros idiomas...sem olvidarmos este detalhe, relevante, retomemos o fio do pensamento, real...please...: Alguém se lembra o nome da comunidade citado no inicio da história? Pois é...El Ar...mudando-se as posições das letras teremos a palavra “Real”, que é o seu nome original; já o nome adotado pelos revolucionários, “Agradar”, em inglês, “please”, com as letras rearranjadas, teremos “asleep”, que significa adormecido. Dizem que quem conta um conto aumenta um ponto...por favor...nem sempre é necessário enfeitar o que não pode nem deve ser enfeitado...algumas histórias, embora pareçam imperfeitas, são perfeitas em seu propósito, construção e conteúdo...esta é uma delas. 

Fiquem em paz. Salam! 

Saiu por uma porta entrou por uma outra...quem quiser que conte outra


[1] Os Sufis, Os Ilhéus - Uma Fábula, Idries Shah, trad. Octávio Mendes Cajado, 1977, Ed. Cultix
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