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segunda-feira, 23 de junho de 2008

PAI FRANCISCO E MÃE CATIRINA


No Ceará, ainda nos tempos da escravidão, havia uma fazenda cujo dono era um coronel daqueles cheios de brabeza. Acontece que ele, possuidor de muitos escravos, tinha um em quem depositava total confiança. O escravo era conhecido e chamado por todos de Pai Francisco.
O velho coronel também tinha uma cozinheira metida à faceira, Catirina, mas que atendia pela alcunha de Catita, e ainda um boi belíssimo que era a menina de seus olhos, famoso em toda região, o boi Barroso.
Deixe estar, que Pai Francisco e Catita namoravam-se e um dia ela chegou com uma notícia e um pedido: “Óia Chico, tô de barriga e deu imim uma vuntade... ocê sabi que desijo de muié buchuda devi de sê rializado”.
“Tu tá de barriga? Ôxi!... Que novidade boa de danar ocê tá mi dando muié; diz logo que vontade é essa!”.
“Deu vontadi, Chico, di comê figo, mas num um figo de um boi qualqué. Ieu queria mermo iera o figo do boi Barroso”.
“Vixe! Tu so pode de tá maluca. Tá vendo que pra ocê comê o figo ieu tenho que primero de matá o boi? Isso num posso fazê. O boi num é meu, nim seu, é do coroné. O boi é de istimação, quirido e cobiçado de todos. Nessa fazenda tem boi a dá com o par e na cozinha onde ocê trabaia, figo é que num há de fartar”.
“Mas Chico, já disse que sum serve se fô o figo do boi Barroso, sinão nosso fio vai nacê com cara de boi lambido”. Disse a Catita, virando a beiçola”.
“Num tem mais nim meio mais... E se nosso fio nacê com cara do boi quirido há di sê muito bonito e angora chega de conversê”.
Pai Francisco ficou feliz e aborrecido, pois a Catita continuava insistindo.
A Catita vendo que não conseguiria convencer pai Francisco, tramou um ardil.
“Chico, vô pridê o colomim e a curpa há di sê tua”.
Diante disso, pai Francisco entrou a desesperar. Como morava um tanto afastado da fazenda, pensou que se matasse o boi, ninguém desconfiaria. Então, saiu de seu sítio e foi atrás do bicho. Tão logo o achou, pegou e o matou, arrancou as carnes e o fígado, enterrando o couro e as tripas, e desde aí nunca mais pisou na fazenda.
O coronel andava preocupado com a ausência de seu escravo preferido e mandou colher notícias, porém ninguém lhe dava uma explicação. Nem mesmo Catirina, que vivia desconfiada e enfurnada na cozinha.
Todavia, mais cedo ou mais tarde, a verdade se sabe. Um dos amigos de Pai Francisco, que saíra para caçar, sentiu ao longe o cheiro de carne assada. Deu-se conta que estava nas redondezas do sítio de pai Francisco. Foi até lá. Deparando-se com o amigo, pai Francisco cobriu-se de vergonha e o outro ao constatar o fato, disse que voltaria à fazenda e contaria ao coronel o sucedido.
Ao chegar na fazenda, o coronel já enfezado reuniu a todos, prontos a serem castigados se não lhe dessem novas de pai Francisco. Adiantando-se, disse o caçador.
“Fui ao sítio de pai Francisco e vi o nego comendo carne assada”.
O coronel, que investigava o sumiço do boi querido, não teve mais dúvidas. Foi mesmo pai Francisco, seu escravo dileto e de confiança, que fizera o serviço. Enfurecido, arrumou os homens e saiu em busca do ladrão.
Pai Francisco, que ficara de prontidão, ao ouvir vozes e passos se aproximando, deixou sua choça e ó, pernas pra que te quero!
Com certa dificuldade conseguiram agarrar o nego fujão, levando-o imediatamente a presença do coronel. Deu chiliques e mais chiliques e quando era interrogado mentia descaradamente dizendo que não tinha sido ele.
“Bem que me avisaram que não eras um homem digno, Chico. Eu teimei e confiei. Mas, deixe estar que eu aprendi, um pouco tarde é verdade, que uma pessoa indigna não é amiga de ninguém. Tô muito zangado. Amo põe logo o nego de castigo que eu não tô cá a mode perder tempo. E olha, Chico, daqui pro fim da tarde, passo a faca no teu pescoço”.
Pai Francisco, tremendo de medo, confessou: “Fui eu sim, sinhô coroné, mas sou um home bom. O sinhozinho me conhece. A curpa num foi minha. Curpada mermo foi Catita, que quiria proquê quiria comê o figo do boi bonito. Mas, prometo coronézinho, que si um dia, esse pobre escravo aqui ficá livre hei de dá uma baita peia na Catita”.
Alguns meses depois, precisamente em junho, o coronel mandou seus escravos prepararem uma festa bem no lugar onde estava preso pai Francisco. Amarrado, sem nada poder fazer, o escravo tinha de agüentar as aporrinhações, principalmente do coronel.
“Aperreio, aperreio por direito o nego veio. Quem mandou matar o boi bonito?”. E assim continuou a acontecer todos os anos, sempre no dia 23 de junho. Os escravos acendiam uma grande fogueira em frente à casa do coronel, depois saiam em busca de pai Francisco e em volta dele faziam uma roda:
Batendo palma, batendo pé,
por causa da muié, pai Francisco,
matô o boi bonito do coroné.
E o coronel muito satisfeito ficava, porque gostava de ver a aflição de pai Francisco.
***
Adapatação da história de Casemiro Anastácio Avelar; CARNEIRO; Edson, Enciclopédia dos Temas Brasileiros; vol.9; pág. 205; Livraria e Editora Waldré.




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