segunda-feira, 23 de junho de 2008

A HISTÓRIA DO BOI CAPRICHOSO ASSIM COMO ERA CONTADA NO ESTADO DO PARÁ

Dizem que o boi custara muito caro, mas seu novo dono não se incomodou e pagou por ele o preço exigido. Queria embelezar a fazenda e também presentear a esposa por conta de seu aniversário.
Assim que o boi chegou, dona Maria, a esposa do fazendeiro, espantou-se com a belezura de bicho que se apresentava diante de seus olhos.
O fazendeiro, homem bravo de costumes rígidos, chamou a família, empregados e agregados, e pondo à frente o primeiro amo, disse: “Este boi é precioso e desde já de estimação. Qualquer atraso seja na ração ou na limpeza do animal, será motivo para severos castigos. Não quero vê-lo maltratado. Ai daquele que tirar uma lasquinha do meu boi!”.
O trabalho na fazenda redobrou, haja vaqueiros para cuidarem do boi bonito, e era preciso tanto cuidado, pois o animal tinha o costume de se afastar e pastar um pouco mais longe, justamente para as bandas em que morava uma família de péssimos costumes, composta por um velho, conhecido como pai Francisco, sua mulher Catirina, seu compadre Cazumbá e uma certa Mãe Guimá.
Um dia, o fazendeiro notou um ar de tristeza rodeando os empregados; tristeza mais acentuada no primeiro amo e nos vaqueiros. Uma desconfiança atravessou-lhe o espírito e para se certificar, mandou reunir a todos.
Na reunião foi acertada a festa do boi-bumbá, cuja apresentação requer o apadrinhamento e os enfeites para poder deixar o curral na véspera de São João. O fazendeiro queria lançar seu boi na arena e para isso presenteou os serviçais com belas fantasias de cetim lamê, adornadas com lentejoulas, arminhos, espelhos, miçangas e contas douradas, e para o querido boi, o padrinho e a madrinha ofertaram veludo preto e cetim branco e também uma grinalda de flores artificiais. Vendo a alegria do patrão, o amo resolveu falar:

Sinhô, o boi sumiu!
Não sei para onde foi.
Ninguém sabe ninguém viu.

O fazendeiro, irado, levantou-se: “Eu sabia! Vão ter que me dizer o que foi que aconteceu. Chame dona Maria e o segundo amo, chame o reverendo e o criado do reverendo, chame o doutor e o segundo vaqueiro”.
Mas não adiantou a aflição do fazendeiro. Ninguém nada lhe sabia informar. Saiu o segundo vaqueiro à cata de notícias e logo depois, chegou trazendo a má nova.

Pai Francisco o boi bonito
na malhada matou.
Caprichoso está morto
e agora sinhô?

O fazendeiro mandou o primeiro e o segundo vaqueiro no encalço de pai Francisco. Encontraram-no dormindo à sombra de um laranjal. O velho acordou sobressaltado com a ordem de levá-lo aprisionado. Mais que depressa, o nego virou para o lado e, tomando de sua espingarda que estava encostada no tronco vizinho, expulsou-os a tiros do laranjal. Os homens deitaram a correr e novamente diante do patrão, disseram assim:

Pai Francisco é muito brabo
e do laranjal nos expulsou.
Por sorte, nem chumbo, nem bala,
Nada, nadica de nada
nem de raspão, nos tascou!
E disse mais
que para a prisão não vai
e se o amo for lá tentar prendê-lo
tem a garrucha preparada
para detê-lo.

O fazendeiro perguntou: “Quem tem peito e poderia prender o valentão?”.
E respondeu o vaqueiro: “Coragem para isso só tem o cacique dos índios”..
Mandou, então, o fazendeiro um célere mensageiro a tribo dos índios, convidando o chefe a comparecer na fazenda. Logo chegou a maloca inteira; tendo a frente o tuxaua, muito desconfiado do mundo civilizado, e dirigiu-se ao amo do boi: “Como vai amo do boi? O que foi, o que há? Tava; muito bem, na minha aldeia, por que lá foram me buscar?”
“Sim, meu tuxaua. Fomos lhe incomodar para com seus guerreiros fazermos uma diligência”.
“Iremos todos assim que batizados formos”.
Então, o fazendeiro fez vir o padre, que morrendo de medo, atendeu o patrão. Finda a cerimônia os índios receberam a ordem de trazer de qualquer jeito o pai Francisco e sua família. Os índios foram, entoando os cantos de sua tribo.
Perto da casa do valentão, os guerreiros ficaram, enquanto o tuxaua apresentava-se à porta.

Há muito, o galo cantou,
mesmo sendo madrugada.
Chico, boa noite, te dou.
Como estás, como passou?

Pai Francisco sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha. Não sabia o que fazer. Chamou os cachorros para afastar os captores, mas o tuxaua matou-os com suas flechas. O nego se meteu a besta e o índio que não era de muita conversa, chamou os guerreiros de sua tribo.
“Itapuã, Fuxá, Curimã, Mandô, Merezuema, Imbiara, indé, indé”...
Num instante prenderam nego Chico e toda sua família. Eles choravam muito e os índios procuraram consolá-los:

Não chora não, Chico, não chora!
Tu não hás de morrer, não!
É só diante do patrão
abrir teu coração.

A Catirina também tentava consolar o marido, dizendo em seus ouvidos que tinha um cordão de ouro que seria a sua salvação.
Os índios entregaram os prisioneiros ao senhor branco que prontamente pôs-se a castigá-los por causa da morte do boi. Pai Francisco desviava-se das perguntas que lhe eram feitas, mas ao ver sua família ameaçada de morte, fez um acordo com o compadre Cazumbá, acertando confessarem que ambos eram culpados pelo crime. Embora estivesse quase provado que o responsável pelo sumiço do boi era mesmo pai Francisco, ainda restava uma ponta de dúvida, isso até o momento da tal confissão.
Chegado o momento terrível, o nego implorou de joelhos ao patrão que fossem suspensos os castigos impostos a ele e a sua família.
“Por que mataste meu boi”. Perguntou-lhe o fazendeiro, e pai Francisco calou-se.
“Vamos, Chico, responda-me, que eu não sou homem de perder tempo”.
“Ah! Sinhô...”, por fim respondeu Chico, “o bicho caiu e morreu”.
Esta resposta desagradou o fazendeiro, que gritou para os seus.
“Surrem-no!”.
Pai Francisco, não agüentando mais as lambadas, aponta para o compadre.
Nova indignação do fazendeiro, que considerava Cazumbá homem de bem.
“Vou esfolar-te vivo se não me disseres a verdade”.
Vendo-se perdido, não lhe restava outra saída. Disse então, pai Francisco:
“Catita tava grávida i disijou cumê um filé do boi Caprichoso”.
“Este desejo de tua mulher, Chico, bastante caro vai te custar. Quero o meu boi vivo e bonito do jeitinho que o encontraste”.
“Mas, sinhô,” disse Chico ainda numa última tentativa de escapar, mesmo sabendo que mais tarde o sinhô branco não haveria de poupar lambadas nas costas de Catirina, “se ieu não fizessi o qui ela quiria a cuitada pridiria a cria. Pur issu, lá fui ieu pelos campos in busca do boi. Dispois di uns dia, incontrei o danado, distraído, pastando. Daí, num pinsei duas vezes. Priperei a espingarda, mirei i ''bum'' puxei o gatilho. Arranquei o filé pra muié i vindeu o resto”.
“Olha, Chico, num quero nem saber. Do outro lado do rio mora um curador de fama. Acho que ele pode ressuscitar o meu boi”.
Acorreram urgentemente em busca do curador que foi logo chegando e pedindo para fazer o serviço: cachaça, defumação, cigarros de tauari e charutos. Sentou-se num banco, passou a cachaça nos braços, acendeu os cigarros e começou o ''trabalho''.
Começaram a chegar os encantados, trazendo aos ombros uma espada encarnada, nas mãos um maracá e três penas de arara e aí se realizou a cura do boi Caprichoso.
Quando finalmente acabou, o curador sempre cantando, despediu-se:

Adeus, Corina, tô indo embora.
Fique com Deus e na paz de Nossa Senhora.
Meu pai me chama e eu pra longe vou
levado pelas vagas do mar

O fazendeiro não coube em si de contentamento em reaver o seu belo animal.

O boi ressuscitou e isto é uma beleza
Mas, quer levantar e não pode,
nas pernas não tem firmeza.
Ainda mais um pouco fez o curador. Massageou e defumou o boi e ensinou o seguinte remédio a pai Francisco: três folhas de gengibre, cinco caroços de poão, raiz de canarana e flor de mururé grande.
Pai Francisco fez como lhe fora ensinado, e então, o boi Caprichoso; cheio de firmeza nas pernas, finalmente se levantou.

Levantou! Levantou!
O bumbá levantou!
Agora, pra todo lugar
vou levar meu bumbá,
vou levar...
***

CARNEIRO; Edson, Enciclopédia dos Temas Brasileiros; vol.9; pág. 205; Livraria e Editora Waldré
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