sábado, 21 de junho de 2008

AURORA [1]



“Ai, que dia mais quente!”. Assim dizia o menino consigo enquanto tirava a camisa.
Ele caminhava às margens de um riacho em que crianças nadavam aproveitando o calor da manhã. A água, limpa e fria, era um convite tentador.
Dali de onde estava podia ver as casas em construções, imitando os velhos estilos europeus. Eram bonitas. Algumas possuíam janelões, com sacadas cobertas de flores.
O menino tem uns dez anos de idade. É inteligente e imaginativo; observa as coisas com muita atenção, tirando por fim suas próprias conclusões. Ele está sempre aprendendo.
Naquele dia não foi à escola e seguiu em direção ao riacho. Estava quase pulando n'água, quando, de repente, o barulho de uma porta fê-lo olhar para os lados da casa mais bonita, e de pé, na sacada, viu uma linda menina; linda de um jeito que nunca vira na vida.
Trazia nas mãos um jarro com o qual pôs-se a regar as flores e ao se inclinar, os longos e finos cabelos cobriram, como um véu, o seu delicado rosto. Era a própria deusa Aurora, radiante, perante as portas do alvorecer.
O menino, não podendo mais suportar o calor, refugiou-se à sombra de um muro, porém, na verdade, a visão inesperada afetara-o mais que o sol abrasador. Ele queimava por dentro. Em seu coração sentiu uma sede que nunca, nada poderia aplacar e sentiu também uma imensa felicidade. Uma leve brisa soprou, espalhando um suave perfume que ele, atordoado, não soube dizer se vinha dela ou das flores que regava. Devagar fechou os olhos e saboreou a doçura da descoberta do primeiro amor.


***Inspirado em Saadi de Shiraz, El Jardín de las Rosas; Décimo quinto cuento
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