domingo, 29 de junho de 2008

A ROSA, O CRAVO E O SOL



Uma rosa foi abruptamente arrancada de meu jardim.
Era uma linda rosa de cintilante cor vermelha e suave perfume; uma rosa muito especial.
No canteiro em que desabrochou, havia muitas outras flores, nenhuma, tão linda quanto ela, que, muito tímida, evitava qualquer aproximação. Temia o sol; amava a lua e era amiga apenas do vento e da chuva.
Entretanto o amor armou seu laço, e a linda rosa viu-se apaixonada por um orgulhoso cravo que só queria saber do sol.
Pobre rosa vermelha! A paixão lhe consumiu o coração e ela viu-se perdida, e mergulhada no desespero. Por causa disso, nem reparou no sol, que não amava o cravo, e sim, a rosa, tal qual à velha canção sobre José que gostava de Maria, que amava João...
O anoitecer enchia a rosa de esperanças, pois a lua, sua amiga, sempre a deixava mais bonita, mas o cravo, o orgulhoso cravo, não lhe deitava nem um olhar, nem um olharzinho sequer e, ao amanhecer, quando o sol buscava ansiosamente por um carinho da rosa, esta se recusava a vê-lo, acusando-o injustamente de ser o responsável pela fatal indiferença que lhe votava o desejado objeto de seu amor.
O cravo, ao perceber o interesse do sol pela rosa, do alto de sua arrogância, não suportou a rejeição e, por vingança, numa noite sem lua, seduziu e abandonou a bela flor.
A rosa, humilhada, ferida em seu amor-próprio por tão rude golpe, quis esconder-se de todos e, em seu infortúnio, não reparou que se inclinara demais para fora da cerca que protegia o canteiro. Alguém que por ali passava achou que ela seria a flor ideal para enfeitar um raro e antigo vaso de cristal e, assim pensando, caminhou em sua direção e bruscamente a separou do galho, pouco se importando com seus queixumes.
Apenas o sol afligiu-se com a sua dor e não deixou por um segundo a ingrata que cruelmente o ignorara. Perfeito no amor; paciente na dor, este maravilhoso amante, todas as manhãs, entrava mansamente pela janela e nas pétalas delicadas depositava um longo beijo sussurrando ao coração frágil e palpitante da amada seus ambicionados e inacessíveis segredos. E assim foi durante dias em que o sol preparou a flor para a sua remissão.
Devidamente preparada, quando o fatal momento chegou, a rosa, pendeu para o lado e suavemente, expirou.
As pétalas desfeitas, mas ainda perfumadas, foram parar dentro de um livro, enquanto o talo apodrecido teve por jazigo um simples saco de lixo. Porém, a alma imortal que a flor, tão duramente conquistara, ascendeu ao céu, amparada pelos tépidos e luminosos raios do sol.
O cravo orgulhoso teve um triste fim.
O inverno chegou carregado de chuva, e uma erva daninha cresceu ao pé da cerca em que ele costumava se apoiar. Em pouco tempo, ela adquiriu força e uma tremenda agilidade e, em um melancólico entardecer, subiu a cerca e enrolou-se ao pescoço do cravo, que, distraído e omisso como era, não teve a menor chance de pedir socorro.

sábado, 28 de junho de 2008

NÓ NA GARGANTA



Ouço os passos do fantasma que me persegue. Mesmo em casa, com as portas trancadas, ouço o ruído de sua risada... apesar do nó na garganta e do frio na boca do estômago, não me desespero, pois conheço esse fantasma e não quero que ele se vá.

Quem me dera, outra vez, sentir nos lábios, o beijo apaixonado que lembrasse à minha alma o quão já foi amada... mesmo que esse amor agora, seja só saudade que me aperta o peito e deixa meus olhos rasos d´ água.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

CENAS DE AMOR PERFEITO


Inicio da tarde... neste período de tempo há certa dificuldade para mim em conciliar meus pensamentos, não importa se faz chuva ou sol... lembro-me de outros inícios de tarde em que a alegria não demorava a chegar: um banho morno no chuveiro do pátio, entre canteiros de rosas e pássaros ou ainda um mergulho na piscina de plástico, brinquedo armado, pronto, sempre a esperar... o pé de acerola, carregadinho de frutos apetitosos e avermelhados... a sombra se estendendo, a crescer no quintal... o vento, ora forte, ora fraco passa, trazendo histórias em suas asas... a roupa a secar no varal... início de mais uma tarde de amor... o pequeno portão de ferro, quebrado, range quando o abrem... sinal de que voltou...correria, sorrisos, gritos de crianças, saudades, beijos e braços... o suor a escorrer pela face bonita e jovem, tristeza a se esconder no olhar... verdades atrozes... na vez, chuva grossa a bater no telhado de folhas de amianto, um sossego esparramado no aconchego do quarto, na cama quente entre lençóis perfumados, segurança, apenas um instante, nos braços calorosos de uma esposa-amante... a morte e a dor aguardam, inquietas, ao lado de fora ... dia seguinte, céu límpido, de um azul estonteante; o sol brilha tanto que ofusca a visão... o sol é belo, a vida é bela, mas, nada se pode ver devido ao clarão... a alma cega... a mesa posta, manhã ou tarde, café para quatro... a alegria está de volta... acordes altos de um contrabaixo... um bebê a chorar... uma canção de ninar... linda visão do futuro... eternamente... juntos... um doce entardecer... assim deveria ser... não há lágrimas que desbotem essas ternas lembranças... quadro familiar pintado por um deus esquecido, mas, invejoso do amor perfeito que, por breves instantes, por descuido, baixou à terra e, rebelde, desatinado, ao céu não mais desejou retornar...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

UM


O homem, sentado à beira do barranco, em sossego, pita um cigarro de palha.
Seus pensamentos acompanham o rio que lá embaixo passa, ligeiro e certo, rumo ao seu destino.
Homem e rio se confundem, unidos na mesma solidão; solidários como velhos amigos que se reencontram depois de um longo tempo.

***

No verão,
partiremos rumo ao sol.
Minha sombra e eu.

***

Fim de noite...!
Perdem-se no ar
as cinzas de junho.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

EM BUSCA DO SOL


Lá vão eles, remando em suas canoas, deslizando suavemente pelo rio, varando a madrugada.
Eles, quem são eles?
São os índios Tupeba, que todos os dias, saem bem cedinho em busca do sol.
O sol que foge todas as tardes, deixando a noite cair, por isso, é preciso partir e outra vez trazê-lo de volta.
Quase perto do encontro das águas, encontram também o sol.
Feliz encontro!
Mais tarde as trevas virão, cobrindo tudo, e, novamente, eles sairão remando em suas canoas, deslizando suavemente pelo rio, varando a madrugada.
Talvez, para sempre, fosse assim.
Mas, ele veio, o homem de cabelos amarelos, o filho do sol.
Um dia, desceu do céu, trazendo consigo um estranho mensageiro; que batendo suas longas asas, cantava para chamar o dia.
E, desde então, os índios Tupeba não saíram mais tão cedo, remando em suas canoas, deslizando suavemente pelo rio, varando a madrugada...
Agora, ficavam muito descansados; deitados em suas redes, esperando ouvir a ave cantar.









terça-feira, 24 de junho de 2008

ENCANTAMENTO


Para Márcia

Que os peixes nunca te deixem esquecer.

Ela pensava enquanto pescava. De uns tempos pra cá, as coisas andavam esquisitas. Lembranças que não eram suas se sucediam em sua mente como cenas de um filme antigo, não conseguia livrar-se delas por mais que tentasse. Saíra para pescar justamente para ver se podia, ao menos, entendê-las. 

Era montar quebra-cabeças. Uma aragem fria sacode-lhe os castanhos e compridos cabelos, encrespando também as negras águas do rio, e de repente, ela sente medo. Uma escuridão, vinda não se sabe de onde, envolve tudo, como se uma noite sem lua despencasse do céu em plena tarde. 

Pronto! Fim da pescaria. Não há mais peixes, não há mais pássaros não há mais sol; iria embora. Mas como? Pergunta-se. Com todo esse pretume jamais acertaria o caminho. Teria de esperar! Encolhe-se na posição fetal, assim é que ela sempre ficava quando se sentia insegura. Devagar, fecha os olhos e novamente as lembranças retornam.

Primeiro é a vastidão da floresta, com índios correndo nus por todos os lados. Livres, tomando banho nos rios. São muitos: crianças, todos crianças, curumins e cunhantãs. Grandes nações dizimadas, escravizadas, enfraquecidas, absorvidas pela ''civilização'' do homem branco, quase nada restando, a não ser os nomes, bonitos e poéticos: Baré, Uapés, Tarumã, Tupeba, Manáo... Manaú... Manaus, ''mãe dos deuses'' e deuses é o que eles pensavam ser, os poderosos senhores da floresta. Quando eles, os invasores, aqui chegaram abriram na mata, uma ferida mortal. Bem no coração verde da floresta, o branco, o homem branco, ergueu uma aldeia, logo depois, uma vila e finalmente uma cidade. Uma cidade que foi, que vai, crescendo desordenadamente, com ruas tortuosas e esburacadas; ruas que rasgam a selva fazendo-a gritar de dor. Ruas que vão tomando o lugar dos igarapés, sempre cheias de animais que por ela transitam livremente; ruas de nomes curiosos: travessa da estrela, travessa do sol, travessa da lua, travessa das gaivotas. As casas surgem em variados estilos arquitetônicos, mistura de raças e culturas. Olhos tristes de longe vigiam os acontecimentos e não gostam nada do que vêem. Luzes brilham, mas não são os olhos da cobra-grande, é a luz elétrica que mexe com a cidade. Mais uma invenção do homem. Para ele já não basta a luz do sol, da lua, das estrelas ou dos românticos lampiões. Invenção do homem, do homem...

Uma magnífica construção eleva-se do chão. Elegante, majestosa, e é dentro dela que eles realizam os seus sonhos. É no teatro mágico, fabuloso, como fabulosa é a cidade idealizada para ser a ''Paris das Selvas'', Paris dos sonhos; sonho amazônico de grandeza de um louco? De um visionário ou de um simples ''Pensador?''1 Talvez todos eles juntos, reunidos no espírito empreendedor de um único homem. Sonhos! Não dizem que tudo é sonho? A realidade é sonho e agora tudo passou. O sonho virou pesadelo, a fábula acabou como uma história mal contada. Ela não é mais a “Paris das Selvas”; não é mais a Paris dos sonhos, ela ganhou feios contornos de modernidade.

A cobra-grande não desperta mais, provocando tremores e temores, abalando a fantasia popular com sua imensa e poderosa cauda. O boto namorador já não dança nos bailes em dias de festa, somente Anhangá passeia debaixo deste sol, cada vez mais moreno, cada vez mais feliz. Os bons espíritos da floresta perderam seu lar e tiveram de se adaptar a nova realidade. Andam pelas ruas esquecidos de si, acreditando que são como uma gente qualquer. Esquecer e serem esquecidos.

Por fim ela compreende que as lembranças sempre foram suas, lembranças de quem sempre habitou este mundo verde desde os tempos sem memória. No mesmo instante dissipa-se a escuridão, então, se levanta e despindo-se da pele humana que vestira por muito tempo, mergulha na água de volta para casa. Os peixes ensinaram-lhe o caminho de retorno. Parte, deixando atrás de si um rastro de prata nas águas escuras do rio, enquanto se acendem as luzes, na cidade cada vez mais distante.

***

1 Pensador: Assim era chamado o então governador Eduardo Gonçalves Ribeiro.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

A HISTÓRIA DO BOI CAPRICHOSO ASSIM COMO ERA CONTADA NO ESTADO DO PARÁ

Dizem que o boi custara muito caro, mas seu novo dono não se incomodou e pagou por ele o preço exigido. Queria embelezar a fazenda e também presentear a esposa por conta de seu aniversário.
Assim que o boi chegou, dona Maria, a esposa do fazendeiro, espantou-se com a belezura de bicho que se apresentava diante de seus olhos.
O fazendeiro, homem bravo de costumes rígidos, chamou a família, empregados e agregados, e pondo à frente o primeiro amo, disse: “Este boi é precioso e desde já de estimação. Qualquer atraso seja na ração ou na limpeza do animal, será motivo para severos castigos. Não quero vê-lo maltratado. Ai daquele que tirar uma lasquinha do meu boi!”.
O trabalho na fazenda redobrou, haja vaqueiros para cuidarem do boi bonito, e era preciso tanto cuidado, pois o animal tinha o costume de se afastar e pastar um pouco mais longe, justamente para as bandas em que morava uma família de péssimos costumes, composta por um velho, conhecido como pai Francisco, sua mulher Catirina, seu compadre Cazumbá e uma certa Mãe Guimá.
Um dia, o fazendeiro notou um ar de tristeza rodeando os empregados; tristeza mais acentuada no primeiro amo e nos vaqueiros. Uma desconfiança atravessou-lhe o espírito e para se certificar, mandou reunir a todos.
Na reunião foi acertada a festa do boi-bumbá, cuja apresentação requer o apadrinhamento e os enfeites para poder deixar o curral na véspera de São João. O fazendeiro queria lançar seu boi na arena e para isso presenteou os serviçais com belas fantasias de cetim lamê, adornadas com lentejoulas, arminhos, espelhos, miçangas e contas douradas, e para o querido boi, o padrinho e a madrinha ofertaram veludo preto e cetim branco e também uma grinalda de flores artificiais. Vendo a alegria do patrão, o amo resolveu falar:

Sinhô, o boi sumiu!
Não sei para onde foi.
Ninguém sabe ninguém viu.

O fazendeiro, irado, levantou-se: “Eu sabia! Vão ter que me dizer o que foi que aconteceu. Chame dona Maria e o segundo amo, chame o reverendo e o criado do reverendo, chame o doutor e o segundo vaqueiro”.
Mas não adiantou a aflição do fazendeiro. Ninguém nada lhe sabia informar. Saiu o segundo vaqueiro à cata de notícias e logo depois, chegou trazendo a má nova.

Pai Francisco o boi bonito
na malhada matou.
Caprichoso está morto
e agora sinhô?

O fazendeiro mandou o primeiro e o segundo vaqueiro no encalço de pai Francisco. Encontraram-no dormindo à sombra de um laranjal. O velho acordou sobressaltado com a ordem de levá-lo aprisionado. Mais que depressa, o nego virou para o lado e, tomando de sua espingarda que estava encostada no tronco vizinho, expulsou-os a tiros do laranjal. Os homens deitaram a correr e novamente diante do patrão, disseram assim:

Pai Francisco é muito brabo
e do laranjal nos expulsou.
Por sorte, nem chumbo, nem bala,
Nada, nadica de nada
nem de raspão, nos tascou!
E disse mais
que para a prisão não vai
e se o amo for lá tentar prendê-lo
tem a garrucha preparada
para detê-lo.

O fazendeiro perguntou: “Quem tem peito e poderia prender o valentão?”.
E respondeu o vaqueiro: “Coragem para isso só tem o cacique dos índios”..
Mandou, então, o fazendeiro um célere mensageiro a tribo dos índios, convidando o chefe a comparecer na fazenda. Logo chegou a maloca inteira; tendo a frente o tuxaua, muito desconfiado do mundo civilizado, e dirigiu-se ao amo do boi: “Como vai amo do boi? O que foi, o que há? Tava; muito bem, na minha aldeia, por que lá foram me buscar?”
“Sim, meu tuxaua. Fomos lhe incomodar para com seus guerreiros fazermos uma diligência”.
“Iremos todos assim que batizados formos”.
Então, o fazendeiro fez vir o padre, que morrendo de medo, atendeu o patrão. Finda a cerimônia os índios receberam a ordem de trazer de qualquer jeito o pai Francisco e sua família. Os índios foram, entoando os cantos de sua tribo.
Perto da casa do valentão, os guerreiros ficaram, enquanto o tuxaua apresentava-se à porta.

Há muito, o galo cantou,
mesmo sendo madrugada.
Chico, boa noite, te dou.
Como estás, como passou?

Pai Francisco sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha. Não sabia o que fazer. Chamou os cachorros para afastar os captores, mas o tuxaua matou-os com suas flechas. O nego se meteu a besta e o índio que não era de muita conversa, chamou os guerreiros de sua tribo.
“Itapuã, Fuxá, Curimã, Mandô, Merezuema, Imbiara, indé, indé”...
Num instante prenderam nego Chico e toda sua família. Eles choravam muito e os índios procuraram consolá-los:

Não chora não, Chico, não chora!
Tu não hás de morrer, não!
É só diante do patrão
abrir teu coração.

A Catirina também tentava consolar o marido, dizendo em seus ouvidos que tinha um cordão de ouro que seria a sua salvação.
Os índios entregaram os prisioneiros ao senhor branco que prontamente pôs-se a castigá-los por causa da morte do boi. Pai Francisco desviava-se das perguntas que lhe eram feitas, mas ao ver sua família ameaçada de morte, fez um acordo com o compadre Cazumbá, acertando confessarem que ambos eram culpados pelo crime. Embora estivesse quase provado que o responsável pelo sumiço do boi era mesmo pai Francisco, ainda restava uma ponta de dúvida, isso até o momento da tal confissão.
Chegado o momento terrível, o nego implorou de joelhos ao patrão que fossem suspensos os castigos impostos a ele e a sua família.
“Por que mataste meu boi”. Perguntou-lhe o fazendeiro, e pai Francisco calou-se.
“Vamos, Chico, responda-me, que eu não sou homem de perder tempo”.
“Ah! Sinhô...”, por fim respondeu Chico, “o bicho caiu e morreu”.
Esta resposta desagradou o fazendeiro, que gritou para os seus.
“Surrem-no!”.
Pai Francisco, não agüentando mais as lambadas, aponta para o compadre.
Nova indignação do fazendeiro, que considerava Cazumbá homem de bem.
“Vou esfolar-te vivo se não me disseres a verdade”.
Vendo-se perdido, não lhe restava outra saída. Disse então, pai Francisco:
“Catita tava grávida i disijou cumê um filé do boi Caprichoso”.
“Este desejo de tua mulher, Chico, bastante caro vai te custar. Quero o meu boi vivo e bonito do jeitinho que o encontraste”.
“Mas, sinhô,” disse Chico ainda numa última tentativa de escapar, mesmo sabendo que mais tarde o sinhô branco não haveria de poupar lambadas nas costas de Catirina, “se ieu não fizessi o qui ela quiria a cuitada pridiria a cria. Pur issu, lá fui ieu pelos campos in busca do boi. Dispois di uns dia, incontrei o danado, distraído, pastando. Daí, num pinsei duas vezes. Priperei a espingarda, mirei i ''bum'' puxei o gatilho. Arranquei o filé pra muié i vindeu o resto”.
“Olha, Chico, num quero nem saber. Do outro lado do rio mora um curador de fama. Acho que ele pode ressuscitar o meu boi”.
Acorreram urgentemente em busca do curador que foi logo chegando e pedindo para fazer o serviço: cachaça, defumação, cigarros de tauari e charutos. Sentou-se num banco, passou a cachaça nos braços, acendeu os cigarros e começou o ''trabalho''.
Começaram a chegar os encantados, trazendo aos ombros uma espada encarnada, nas mãos um maracá e três penas de arara e aí se realizou a cura do boi Caprichoso.
Quando finalmente acabou, o curador sempre cantando, despediu-se:

Adeus, Corina, tô indo embora.
Fique com Deus e na paz de Nossa Senhora.
Meu pai me chama e eu pra longe vou
levado pelas vagas do mar

O fazendeiro não coube em si de contentamento em reaver o seu belo animal.

O boi ressuscitou e isto é uma beleza
Mas, quer levantar e não pode,
nas pernas não tem firmeza.
Ainda mais um pouco fez o curador. Massageou e defumou o boi e ensinou o seguinte remédio a pai Francisco: três folhas de gengibre, cinco caroços de poão, raiz de canarana e flor de mururé grande.
Pai Francisco fez como lhe fora ensinado, e então, o boi Caprichoso; cheio de firmeza nas pernas, finalmente se levantou.

Levantou! Levantou!
O bumbá levantou!
Agora, pra todo lugar
vou levar meu bumbá,
vou levar...
***

CARNEIRO; Edson, Enciclopédia dos Temas Brasileiros; vol.9; pág. 205; Livraria e Editora Waldré

PAI FRANCISCO E MÃE CATIRINA


No Ceará, ainda nos tempos da escravidão, havia uma fazenda cujo dono era um coronel daqueles cheios de brabeza. Acontece que ele, possuidor de muitos escravos, tinha um em quem depositava total confiança. O escravo era conhecido e chamado por todos de Pai Francisco.
O velho coronel também tinha uma cozinheira metida à faceira, Catirina, mas que atendia pela alcunha de Catita, e ainda um boi belíssimo que era a menina de seus olhos, famoso em toda região, o boi Barroso.
Deixe estar, que Pai Francisco e Catita namoravam-se e um dia ela chegou com uma notícia e um pedido: “Óia Chico, tô de barriga e deu imim uma vuntade... ocê sabi que desijo de muié buchuda devi de sê rializado”.
“Tu tá de barriga? Ôxi!... Que novidade boa de danar ocê tá mi dando muié; diz logo que vontade é essa!”.
“Deu vontadi, Chico, di comê figo, mas num um figo de um boi qualqué. Ieu queria mermo iera o figo do boi Barroso”.
“Vixe! Tu so pode de tá maluca. Tá vendo que pra ocê comê o figo ieu tenho que primero de matá o boi? Isso num posso fazê. O boi num é meu, nim seu, é do coroné. O boi é de istimação, quirido e cobiçado de todos. Nessa fazenda tem boi a dá com o par e na cozinha onde ocê trabaia, figo é que num há de fartar”.
“Mas Chico, já disse que sum serve se fô o figo do boi Barroso, sinão nosso fio vai nacê com cara de boi lambido”. Disse a Catita, virando a beiçola”.
“Num tem mais nim meio mais... E se nosso fio nacê com cara do boi quirido há di sê muito bonito e angora chega de conversê”.
Pai Francisco ficou feliz e aborrecido, pois a Catita continuava insistindo.
A Catita vendo que não conseguiria convencer pai Francisco, tramou um ardil.
“Chico, vô pridê o colomim e a curpa há di sê tua”.
Diante disso, pai Francisco entrou a desesperar. Como morava um tanto afastado da fazenda, pensou que se matasse o boi, ninguém desconfiaria. Então, saiu de seu sítio e foi atrás do bicho. Tão logo o achou, pegou e o matou, arrancou as carnes e o fígado, enterrando o couro e as tripas, e desde aí nunca mais pisou na fazenda.
O coronel andava preocupado com a ausência de seu escravo preferido e mandou colher notícias, porém ninguém lhe dava uma explicação. Nem mesmo Catirina, que vivia desconfiada e enfurnada na cozinha.
Todavia, mais cedo ou mais tarde, a verdade se sabe. Um dos amigos de Pai Francisco, que saíra para caçar, sentiu ao longe o cheiro de carne assada. Deu-se conta que estava nas redondezas do sítio de pai Francisco. Foi até lá. Deparando-se com o amigo, pai Francisco cobriu-se de vergonha e o outro ao constatar o fato, disse que voltaria à fazenda e contaria ao coronel o sucedido.
Ao chegar na fazenda, o coronel já enfezado reuniu a todos, prontos a serem castigados se não lhe dessem novas de pai Francisco. Adiantando-se, disse o caçador.
“Fui ao sítio de pai Francisco e vi o nego comendo carne assada”.
O coronel, que investigava o sumiço do boi querido, não teve mais dúvidas. Foi mesmo pai Francisco, seu escravo dileto e de confiança, que fizera o serviço. Enfurecido, arrumou os homens e saiu em busca do ladrão.
Pai Francisco, que ficara de prontidão, ao ouvir vozes e passos se aproximando, deixou sua choça e ó, pernas pra que te quero!
Com certa dificuldade conseguiram agarrar o nego fujão, levando-o imediatamente a presença do coronel. Deu chiliques e mais chiliques e quando era interrogado mentia descaradamente dizendo que não tinha sido ele.
“Bem que me avisaram que não eras um homem digno, Chico. Eu teimei e confiei. Mas, deixe estar que eu aprendi, um pouco tarde é verdade, que uma pessoa indigna não é amiga de ninguém. Tô muito zangado. Amo põe logo o nego de castigo que eu não tô cá a mode perder tempo. E olha, Chico, daqui pro fim da tarde, passo a faca no teu pescoço”.
Pai Francisco, tremendo de medo, confessou: “Fui eu sim, sinhô coroné, mas sou um home bom. O sinhozinho me conhece. A curpa num foi minha. Curpada mermo foi Catita, que quiria proquê quiria comê o figo do boi bonito. Mas, prometo coronézinho, que si um dia, esse pobre escravo aqui ficá livre hei de dá uma baita peia na Catita”.
Alguns meses depois, precisamente em junho, o coronel mandou seus escravos prepararem uma festa bem no lugar onde estava preso pai Francisco. Amarrado, sem nada poder fazer, o escravo tinha de agüentar as aporrinhações, principalmente do coronel.
“Aperreio, aperreio por direito o nego veio. Quem mandou matar o boi bonito?”. E assim continuou a acontecer todos os anos, sempre no dia 23 de junho. Os escravos acendiam uma grande fogueira em frente à casa do coronel, depois saiam em busca de pai Francisco e em volta dele faziam uma roda:
Batendo palma, batendo pé,
por causa da muié, pai Francisco,
matô o boi bonito do coroné.
E o coronel muito satisfeito ficava, porque gostava de ver a aflição de pai Francisco.
***

Adapatação da história de Casemiro Anastácio Avelar; CARNEIRO; Edson, Enciclopédia dos Temas Brasileiros; vol.9; pág. 205; Livraria e Editora Waldré.

domingo, 22 de junho de 2008

FESTA DO BOI BUMBÁ OU PAVULAGEM



A leste do Amazonas, precisamente a 325 Km de Manaus, se encontra, sob a benção de Nossa Senhora do Carmo, a padroeira, o município de Parintins, a ilha do folclore, assim conhecida por abrigar durante os dias 28,29 e 30 de junho a maior festa folclórica do estado, quiçá, do país. Perdendo apenas para o carnaval, a festa do boi-bumbá, é também conhecida por pavulagem, que no dizer do caboclo da região, significa gabar-se, contar vantagem.
A “ilha Tupinambarana” (falsos tupis) outro nome pelo qual Parintins é chamada, situa-se à margem direita do rio Amazonas e é formada por uma população de espírito moderno e empreendedor, vibrante, que detêm nos bois Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul), as suas maiores paixões. Divididas em torcidas, nos dias de festa, a rivalidade chega ao extremo de se pintar a casa ou só se vestir com roupas da cor do boi de sua preferência.
A festa de boi-bumbá veio do Maranhão, que lá era chamada por bumba-meu-boi, com os primeiros imigrantes que aqui na Amazônia vieram se instalar, tomando desde então, devido à miscigenação existente na região, características próprias. Mas, apesar de afluírem para a “ilha dos falsos tupis” grandes levas de turistas não é só em Parintins que se respira folclore ou brinca-se de boi-bumbá, em Manaus, ainda é viva e forte a tradição desta dança dramática preservada com muito carinho no seio das comunidades e nos bairros. A morte e a ressurreição do boi são os pontos altos dessa festa magnífica, encenada nas profundezas da Floresta Amazônica, é o canto do branco, do negro e do índio misturados aos cantos dos encantados, dos pássaros e outros bichos, pedindo passagem para que o mundo ouça a sua mensagem e que, ao volver o olhar para esse mítico “paraiso/inferno verde”, pense que é preciso e possível a preservação, é possivel um futuro promissor, "garantido" e "caprichoso", duradouro, para nós, para todos.

sábado, 21 de junho de 2008

AURORA [1]



“Ai, que dia mais quente!”. Assim dizia o menino consigo enquanto tirava a camisa.
Ele caminhava às margens de um riacho em que crianças nadavam aproveitando o calor da manhã. A água, limpa e fria, era um convite tentador.
Dali de onde estava podia ver as casas em construções, imitando os velhos estilos europeus. Eram bonitas. Algumas possuíam janelões, com sacadas cobertas de flores.
O menino tem uns dez anos de idade. É inteligente e imaginativo; observa as coisas com muita atenção, tirando por fim suas próprias conclusões. Ele está sempre aprendendo.
Naquele dia não foi à escola e seguiu em direção ao riacho. Estava quase pulando n'água, quando, de repente, o barulho de uma porta fê-lo olhar para os lados da casa mais bonita, e de pé, na sacada, viu uma linda menina; linda de um jeito que nunca vira na vida.
Trazia nas mãos um jarro com o qual pôs-se a regar as flores e ao se inclinar, os longos e finos cabelos cobriram, como um véu, o seu delicado rosto. Era a própria deusa Aurora, radiante, perante as portas do alvorecer.
O menino, não podendo mais suportar o calor, refugiou-se à sombra de um muro, porém, na verdade, a visão inesperada afetara-o mais que o sol abrasador. Ele queimava por dentro. Em seu coração sentiu uma sede que nunca, nada poderia aplacar e sentiu também uma imensa felicidade. Uma leve brisa soprou, espalhando um suave perfume que ele, atordoado, não soube dizer se vinha dela ou das flores que regava. Devagar fechou os olhos e saboreou a doçura da descoberta do primeiro amor.


***Inspirado em Saadi de Shiraz, El Jardín de las Rosas; Décimo quinto cuento

sexta-feira, 20 de junho de 2008

TAMBATAJÁ [1]


Amasuru, índio da tribo Macuxi, além de grande guerreiro, era belo e inteligente, pois os deuses o haviam agraciado com todas as graças que pudessem ser concedidas a um mortal. Mas um dia, enredado pelas artimanhas de Rudá, o deus do amor, o guerreiro apaixonou-se perdidamente por Jaciara, a filha do pajé.
Realmente, em todo Imenso Vale Verde não havia beleza igual. Cabelos longos, negros e brilhantes, emolduravam um rosto que de tão rosado parecia besuntado de urucum
[1].
Para felicidade de Amasuru, Jaciara também o amava e diante desse fato, foi acertado o casamento.
Depois de casados, marido e mulher viviam felizes, devotados que eram um ao outro.
O tempo passou e tudo ia bem até que o guerreiro precisou se ausentar. Uma sangrenta batalha o aguardava. Amasuru, que não queria saber de matanças desde que conhecera o amor, chorou bastante. Mas, por questões de honra, sendo ele o mais bravo e o mais forte, precisava ir.
Pegando as armas de guerra, subiu na ygar
[2] juntando-se aos outros, rapidamente desaparecendo nas curvas do rio.
Jaciara lamentava-se noite e dia. Perdeu o rosado do rosto e caiu doente. O que seria dela se Amasuru não voltasse?
No clamor da batalha distante, o guerreiro lutou com a força do desespero, matando muitos, pois queria, o quanto antes, voltar para casa.
Numa noite de lua cheia, o povo da aldeia Macuxi, ouviu ao longe o canto do inybi-á
[3]. Eles voltaram, mas Jaciara, doente como estava não pôde levantar-se. Amasuru, ao procurar sua amada e não encontrá-la em meio à gente, acorreu rapidamente à sua oca. Lá estava ela, ainda deitada e ardendo em febre. Seu pai, o velho pajé, desistira de suas pajelanças e procurava acalmar os delírios da filha.
Preparou-se uma festa, onde Amasuru seria o maior homenageado. Não compareceu, o que apenas lhe importava era ficar ao lado de Jaciara.
Naquela mesma noite, pela madrugada, Jaciara melhorou e ao contemplar o amado, as cores e o sorriso lhe voltaram, e durante algum tempo, o casal tornou a ser feliz. Para não mais deixá-la só, enquanto se recuperava, Amasuru teceu uma tipóia, onde a colocou, amarrando-a as costas, levando-a assim para todos os lugares.
Mas o contentamento teve a duração do tépido calor da manhã.
Certa feita, Amasuru, sempre carregando a tipóia, resolveu dar um passeio num lugar bonito, cheio de beija-flores, que só ele conhecia. Pelo caminho foi conversando com Jaciara, enquanto ia recolhendo água, flores e alguns frutos. Porém, ao chegarem no dito lugar e ao desamarrar a tipóia, o jovem índio constatou que Jaciara estava morrendo. Só teve tempo de retirá-la e ampará-la nos seus braços.
Tomado pela dor carregou seu corpo, embrenhando-se por dentro da floresta. Parou à beira de um riacho, onde, com suas próprias mãos, cavou uma sepultura. Depois, baixando o corpo da esposa, deitou-se ao seu lado, lá permanecendo até o fim.
Grossas chuvas despencaram, empurrando a terra que, aos poucos, foi cedendo e cobrindo os amantes. Amasuru olhou uma última vez para o céu. Um raio iluminou a escuridão, e o coração do jovem guerreiro se aquietou. Tupã havia aceitado seu sacrifício.
No retorno da lua cheia, em cima da sepultura, brotou um pé de planta, de folhas triangulares, de cor verde escuro; trazendo em seu verso uma outra folha de menor tamanho. É o tambatajá, a qual os índios e os caboclos da região atribuem poderes místicos.
Nas casas em que há amor, a planta cresce viçosa. Se na folha grande não existir a pequena é sinal de que não há amor, e se acaso apresenta mais de uma folhinha, então é porque há infidelidade entre o casal.

*********
[
1] urucum: fruto do urucunzeiro, em que, da polpa, se extrai um corante vermelho.
[2] ygar: canoa
[3] inibi-yá: espécie de cornetim

Do livro MORONETÁ-Crõnicas Manauaras, Virgínia Allan, Editora Valer

quinta-feira, 19 de junho de 2008

DESABAFO


Gerei meu assombro ao divisar teu rosto entre um açoite de lembranças esquecidas. Dominou-me a amargura, cansado que estava em chamar teu nome. Aborreceu-me, então, o silêncio da noite.
Pensei em começar uma nova história em que fosses tu o principal personagem, porém teus atos traíram tuas palavras e dei-me conta, de repente, que, outra vez, mergulharia na mais banal das situações.
Letargia! Estou cansada dos rostos que se escondem sob as máscaras que não escondem nada... Será possível, meu Deus, que não haja, neste mundo, um ser real, um ser de verdade? Que não seja de plástico? Serão mesmo todos iguais...?! Decepção... Ó mundo, maldita fábrica humana de bonecos.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

terça-feira, 17 de junho de 2008

PROSA



Acho que alguém já disse que escrever é como tecer um tapete ou coser uma roupa... É bela e romântica a comparação...
Descobri outro dia, entre velhos papéis dobrados, rascunhos de desenhos e textos esquecidos, uma bela história escrita num antigo caderno de escola. A minha história... Nossa... fazia tanto tempo que o caderno estivera ali escondido que por pouco não o rasguei e joguei-o fora, quase ignorando a voz insistente, mas amiga, que não cansava de sussurrar em meus ouvidos para que não fizesse isto... Cedi, é claro, à minha intuição seria, realmente um gesto insensato, mas agora estou em dúvida se a conto ou não... A minha história é tão bonita, tão rica de detalhes e tão transparente... só não lêem os segredos revelados nas entrelinhas aqueles que nunca amaram ou nunca se libertaram de conceitos estereotipados...

PAUSA para pensar hummm... Pensando... Pensando...?!?!....Huuuummmm!

Não.... para o desconsolo de todos que apreciam conhecer um segredo, decidi-me por não contá-la , é pessoal demais para espalhá-la por aí, aos quatro ventos, então, sinto muito, mas a guardarei para mim... Por enquanto, porém, para que não morram de curiosidades, ou de inveja, limitar-me-ei aqui, apenas a contar sobre o tipo de material do qual é composta (a sua descrição, por si só, já garante uma boa dose de encantamento) um material especial do qual são tecidos todos os sonhos, como diria um famoso poeta inglês, uma vez que a minha história transpôs o papel e ficou pairando no mundo irreal (ou ideal?) e um tanto frágil da inevitabilidade das idéias...
Primeiramente, a fim de chamar a atenção, um fino e brilhante revestimento de palavras e frases de gentilezas vê-se logo na introdução, a costura, feita a mão, de um modo raro, entra e sai num alinhave de letras perfeito, unindo e reforçando os pontos de ação que não podem nunca ficar separados para dar boa impressão.
No meio do tecido, um bordado de suspense e romance, mesclado a um bom reforço com as fortes linhas do drama, entrecortado pelas finas linhas coloridas do riso, e justamente neste exato momento uma lágrima furtiva se aproveita, e perfurando o bloqueio anti-sensibilidade, escorre, manchando o tecido onírico, levemente amarelecido.
De uma linha a outra, na continuidade da costura cuidadosa, um perfume de lembranças, saudades ignoradas, nos assaltam e, pegos desprevenidos, somos obrigados a fechar os olhos e parar, outra vez, por mais um longo instante a fim de ouvir e entender o silêncio, e, como é uma costura comprida e ainda sem fim está repleta de pontas soltas.
O mistério da perfeição do tipo e modelo do tecido, se encontra nos pontos de exclamação e interrogação... para se poder entendê-lo, deve-se antes lapidá-lo como se faz com a pedra preciosa, pois, é somente depois desse árduo trabalho, que o entendimento reluz como as luzes maravilhosas de um glorioso dia de sol; é exatamente deste mistério que são feitos os preciosos botões mágicos que enfeitam o tecido, levemente amarelecido de minha história, que abrem e fecham as casas de nossas ilusões e doces pensamentos...

domingo, 15 de junho de 2008

FRAGILIDADE



Meu coração teima em ficar feliz só de ouvir a tua voz.
As aflições que me perseguem desfazem-se ao som de tua voz
O vento, a chuva, o sol, perdem a força, a importância e a cor ao som de tua voz.
Tua poesia misturada a minha melancolia elevam o meu ser até a uma fonte real de poder.
Sou menina, sou mulher ao som de tua voz.
Se não te ouço; se não te vejo, cai em mim o anoitecer. E muda não me satisfaço, pois somente em ti tenho prazer.
Arranca o gemido de minha boca e o segredo de meu coração. Minha alma implora por tua alma. Meu corpo implora por teu corpo, não apenas pelo gozo ansiado, mas pelo toque há tanto esperado onde alguém, único, desfaria para sempre as cortinas de ilusão.
Ainda cruzo um deserto e talvez sejas tão somente uma miragem ou então seja apenas o pálido reflexo dos meus desejos mais recônditos que me é devolvido pelo negro espelho da noite, ou o frio desse deserto que nunca me abandona, resolveu me assombrar e mandou-te, demônio, em forma de homem, sedutor e distante.
Sim... creio agora, que sejas mesmo tão somente um demônio ou uma miragem para que eu, na ânsia em fugir de ti ou de alcançar-te, vá cada vez mais para longe... de mim.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

QUIS BRINDAR-TE COM UMA CANÇÃO



Quis brindar-te com uma canção e deixei que o coração a começasse.
O coração rimou com a paixão, que desesperadamente voou para o aconchego dos teus braços.
Teus braços a envolveram, mas não suportaram a angústia de viverem entrelaçados e relaxando o abraço, deixou-a solta, vagando perdida no espaço.
A paixão muito chorou, mas sumiu, misturada à poeira do infinito!

quinta-feira, 12 de junho de 2008



Querido,

Espero que, onde quer que tu estejas, de alguma forma, possas zelar por nós. Meu amor, custa-me ainda aceitar seguir a vida sem ti. Eu não entendo (e talvez, jamais entenda) os motivos que te levaram a concluir teu destino de uma forma tão prematura e insensata. Penso que se tivesses resistido mais um pouco, um pouquinho que fosse, cairias em ti, e as nuvens negras que nos atormentavam passariam ao largo, levando para longe a violenta tempestade que ameaçava desabar sobre nós. Porém, as nuvens negras permaneceram, e a tempestade, enfim, desabou, mas somente sobre a minha cabeça. Ninguém mora mais em nossa casa; cortaram nossa roseira e tudo ficou frio e sem cor. Sinto tanto a tua falta... tuas filhas também. Os dias passam; e o tormento do qual tento me livrar sem muito sucesso, ainda é o mesmo, tudo me lembra você... e o que fazer com tanta dor? Todos diziam que isso iria passar, era só dar tempo ao tempo, mas, infelizmente, não sinto isto acontecer.
Anna Clara, a Danda, o nosso baby sol/baby soul está tão engraçada... Cada dia mais inteligente. Luisa, cada vez maior, bonita e esperta. Com o tempo, administrará sua vida (se Deus quiser) no caminho que lhe indicamos e de uma maneira melhor e mais produtiva que a nossa. Vê-la crescer dessa forma me tranqüiliza, pois além de poder cuidar de si mesma, saberá cuidar também de sua irmã.
Quase nada se modificou desde que te foste. O Brasil, e o resto do mundo continuam turbulentos e as perspectivas de um futuro não são nada animadoras. Tento deixar de lado meus sombrios pensamentos, mas não tem sido nada fácil. Sei que nunca terei respostas para o teu gesto insensato, todavia, indago-me o porquê dessa tua atitude todo santo dia. Algumas vezes sinto-me traída e custo a te perdoar... deixaste-me sem esperanças, com duas crianças pra cuidar e um caminho solitário a percorrer.. de qualquer forma,feliz dia dos namorados. Peço a Deus, Senhor dos Mundos, que me dê aceitação, pois somente assim eu terei um pouco de paz. Para ti, peço apenas que Ele te complete e te ilumine; para que, enfim, de volta ao caminho correto, possas obter o Seu perdão.

Com Deus
Com amor
Daquela que não te esquece

quarta-feira, 11 de junho de 2008

LAYLA E MAJNUN [1]



Desde que te perdi, não sou mais a mesma. Tu te foste, e tudo escureceu ao meu redor. Para mim, não há mais dia ou noite. Tanto faz se o sol brilha lá fora ou se desaba uma tempestade. Nada vejo.
Lembra-te de como éramos felizes? Muitas vezes ficávamos em silêncio, estudando o vôo dos pássaros ou observando os campos floridos ao nosso redor; brincando com os pequenos animais que passeavam sob o sol, o mesmo sol que te acariciava e te enchia de graça e beleza.
Minha vida sem ti, não é vida. Perdi-me de mim, pois só conseguia reencontrar-me diante de ti. Minha paz repousava em teus olhos; em teus meigos e amados olhos; tão castanhos... Neles, somente neles, é que eu podia contemplar a razão da verdadeira existência, pois vendo a ti via também a mim.
Dói-me saber que não posso mais de ti me aproximar. O amor ainda me queima; sou como uma vela cuja chama teima em não se apagar... Procuro acalmar esta dor com a música de minha flauta. Os animais, ao ouvirem o tom queixoso que dela sai, tomados pela compaixão, vêem e deitam-se aos meus pés e escutam com especial atenção nossa breve história de amor.
O vento balança as folhas das árvores que me cercam, mas o vento nunca me perturba, é sempre bem-vindo, pois me traz notícias de ti e o aroma de teu perfume... e depois ele dança...dança...dança... dança num alegre compasso a triste melodia.
Estou louca? Estou... Já que digo e repito que tu eras o próprio amor, e eu, apenas uma amante desvairada. Soubeste amar muito mais do que eu. Trazias-me trancada dentro de ti; em teu coração; nas profundezas de tua alma. Amavas em silêncio, enquanto eu impunha ao mundo o meu completo desespero e agora, o meu espírito não suporta mais a tua ausência.
Ainda somos um?
*****[1] Texto alusivo a uma história de amor, célebre no Oriente, do poeta sufi Nizami. Layla significa “noite” e Majnun, em árabe, “louco”.

terça-feira, 10 de junho de 2008

TENTATIVA




Não sei escrever poemas de amor.
Posso apenas dizer que te amo de viva voz, ao pé de teu ouvido, quando junto a mim te deitas e me falas baixinho.
Não sei escrever poemas de amor; desculpe-me. Este foi o único que tentei, mas os versos não vieram!
Porém, posso dizer que te amo de viva voz, ao pé de teu ouvido, quando junto a mim te deitas e me falas baixinho.

***

Que fazes aí, querido, sozinho nesta escuridão? 
Vem. Dá-me a tua mão e senta-te aqui comigo.
Esquece a tempestade que se forma lá fora. 
Amanhã, tudo já terá passado e tu, hás de reparar no brilho do sol. 
Agora, eu só quero te abraçar; sentar-me em teu colo e contar-te uma longa história.


segunda-feira, 9 de junho de 2008

DO AMOR ROMÂNTICO




Escuta, amiga e senhora minha, este teu bravo e gentil cavaleiro, que tendo percorrido terras do mundo inteiro, e vivido aventuras das mais intrigantes, deita aos teus pés os despojos da mais terrível batalha.
Saiba, amiga e senhora, foram para ti todos os meus pensamentos, devotadas a ti todas as minhas horas, incansável na refrega subjuguei-os por amor ao teu nome.
Por isso, não olvidarão jamais, este teu bravo e gentil cavaleiro, não olvidarão jamais, este teu doce e perfeito nome.
Pela verde planície em que vivi tão delirante aventura, para sempre se escutará, no rumorejar do vento, agitando as folhas das árvores, a canção do passado que se tornou presente.
Este será o meu legado para as gerações futuras, que elas possam cobrir o que deixei faltar. Se eu falhei como herói, não falhei como cavalheiro.
Que aquele vento, que sopra eternamente na verde planície, agitando as folhas das árvores, cantando a minha canção, possa me redimir.
Agi com as melhores das intenções, porque sempre fui fiel ao que acreditei.
Este vosso bravo e gentil cavaleiro foi fiel, porque sempre acreditou no amor.
Agora desejo somente o repouso. E a paz, que tão ferrenhamente busquei, possa me abrandar as penas. Que ela me envolva e faça calar o mundo.
Que eu ouça apenas a tua voz, amiga e senhora, e assim possa esquecer, ao menos por uns momentos, o que não mais poderá ser esquecido.

domingo, 8 de junho de 2008

ONIRICO



Bem-te-vi bem que te viu, no sossego do jardim, entre flores de jasmim...
Bem-te-vi bem que te viu e veio me contar para o meu dia alegrar...

***

Canta a perdiz ao entardecer uma canção infeliz...
Já não há no céu, o brilho do sol, porém a noite ainda não surgiu
Mas, pela fresta aberta do crepúsculo ferido, tímida, a lua espia...


***

No verão, partiremos rumo ao sol... 
Minha sombra e eu.

***

E ele um dia fez o que nunca fazia... 
Pôs na cabeça um chapéu, vestiu paletó e gravata e pegou uma carona para o céu, montando nas cores de um arco-íris que passava.

***

Na superfície da água, um pequeno arco-íris. 
Desejo de paz na tarde que se aproxima.

sábado, 7 de junho de 2008

DEVANEIOS



Amor, trocas, segredos, sussurros, suspiros, anseios. Mãos que levemente se tocam causando arrepios, desejos, desejos sem freios. Renuncia ao prazer, por quê? Medos; receios; na calada da noite, sofro. Deito, durmo, sonho; com você, pensamento noite e dia, tormento. Amor, música, sol e chuva, ciúme, tarde calma, noite escura, longa madrugada... Amor, vida a dois, casal, mesmice, chatice, filhos, dificuldades; dinheiro é bom, mas a vida é muito maior do que isso; novidades, saudades, passado, presente, futuro?... A Deus pertence e a nós também, quem sabe mais tarde, talvez um dia, a qualquer hora, em qualquer lugar, novamente a gente se encontre, pode ser muito tarde ou ainda muito cedo, ou então, novo recomeço; do quê?... Amor, esperança, vida a dois, casal, mesmice, chatice, filhos! Que bom seria, mas, de novo? Quero, não quero, o que queres? Voar? Voar é com os pássaros, será? Com os anjos, demônios ou com super-homens, somos todos especiais, uns mais que outros, liberdade, viagens, saudades, outra vez? Amo; amarei para sempre; ''amor que seja infinito enquanto dure, posto que é chama'', tomara que esta chama nunca se apague, que ela ilumine a eternidade, ''amor, peço perdão por te amar de repente'', mas não tão de repente! Há tempos trazias-me contigo, não sabias? Agora sabes, é tarde? Quem é que sabe? Espero que não, não, não lamentes, ''sigamos em frente que atrás vem gente'', apoio, segurança, simplicidade, amor de novo? De novo? Amaste antes? Quando? No verão? Não conhecias o amor? Amas agora? Amas de verdade, ou ainda não sabes? Pôr de sol, rio, fumaça, poesia, estrela, lua, vida, morte, linda morte, morremos sempre, um pouquinho a cada dia, a cada tarde, a cada noite, deitados na cama, assistindo televisão, passando um avião, no silêncio encontra-se a solução? Amor, estado de graça, plenitude, harmonia; amo; amarei para sempre e tu?... Também?

sexta-feira, 6 de junho de 2008

MESTRE TATÁ E UMA HISTÓRIA DA FLORESTA

Conversa fiada, todos sabiam que era, mas não tinha um que não largasse, fosse lá o que estivesse fazendo, para ouvir o que mestre Tatá tinha a contar. Era só dar o ar de sua graça no antigo armazém, que logo aparecia diante dele como num passe de mágica, o copo de café com leite e um pratinho com tapioca salgada, pupunha e tucumã. Tudo muito limpo e arrumado, somente para contentar o velho contador de histórias.

Manhãzinha, sob o sol fresquinho, de paletó branco, chapéu e sapato fechado, vinha ele, muito elegante, apoiando sua bengala de marfim (resquício precioso de um passado de venturas) na rua sem calçamento. Chegava, recostava-se na cadeira, tirava o chapéu e calmamente fazia o desjejum.

O povo, atento a cada gesto, esperava, esperava... Todavia, se acaso ele se demorava na apreciação do repasto, alguém mais ansioso danava a falar e a fazer perguntas: “E aí, mestre Tatá? Tudo bem com o senhor? E dona Aurora? Os filhos, como é que vão? Com a misericórdia do Homem lá de cima hão de estar todos bem, não! Assim Ele queira. E, é claro que Ele quer, pois, gente boa igual ao senhor e dona Aurora não se encontra fácil, não. Mas, Mestre Tatá como é mesmo aquela história do encontro com o Curupira? Já forcei o pensamento, mas não teve jeito... Sabe como é, né?!... O tempo passa, põe prata nos cabelos e tudo fica escuro, confuso. Quero me alembrar para poder contar pros netos. O senhor nem imagina como aqueles guris gostam de ouvir uma história, e quanto mais atrevida, melhor”.

“Olhe, amigo Tonho, nem Curupira, nem Saci-Pererê”. Disse mestre Tatá, sorvendo uns goles do café com leite e tratando de descascar o tucumã. "Atrevido foi o Caipora com quem topei na última caçada que fiz, ainda nos meus tempos de moço, quando tinha forças nos braços e nas pernas e coragem para me embrenhar por dentro da floresta que conhecia como a palma de minha mão, melhor que muito mateiro... Passava dias e dias, caçando, colhendo frutos sem sentir falta de gente e sem temer assombração. 

Foi por essa época, que perdi o gosto de matar bicho; não por medo daquela coisinha ruim, é que acho covardia mesmo, mas nem sempre pensara assim e daquela vez, matei um macaco. O coitado parece que sabia que ia morrer. O bicho mexia as mãos; tapava os olhos, num gesto misto de defesa e pedido de comiseração. Daquela vez, fato do qual me arrependo até hoje; cedi aos maus instintos; mirei e atirei, ele caiu duro, estatelado no chão. Então, me aproximei e virei o bicho... Para minha surpresa, era uma macaca, que, ao pressentir o perigo; escondera a cria entre os arbustos que havia aos pés da árvore de samaúma. Não tivera tempo, a coitada, de subir e fugir com seu filhote para os galhos mais altos. 

Ao dar-me conta da insensatez de meu ato, afirmo e reafirmo, e não sinto vergonha disso, pus-me a chorar. O animalzinho indefeso pulou para cima de sua mãe, procurando animá-la a levantar-se, era de dar dó no coração e nó na garaganta. Porém percebendo que de nada adiantava, olhou-me, com uns olhos assim, graúdos e tristes, e, sem que eu esperasse, subiu para o meu colo. 

Penalizado, prometi diante do cadáver de sua mãe, cuja vida havia tirado sem quê nem pra quê, cuidar e amar o bichinho com o máximo de atenção e carinho. Não comi sua carne; enterrei-a como se enterrasse gente, como se enterrasse um amigo, com direito à oração e tudo. Podem até pensar que foi um despropósito, mas vocês hão de convir, que precisava aliviar a dor que me roía o coração.

Depois, segui com o macaquinho para acampar em outro rincão. Entretanto, o besta do Caipora não levou em consideração o meu arrependimento e naquela mesma noite o danado veio no meu rasto. Esse gênio da floresta é feio de doer, é um ser escuro, bem escurinho, rápido como uma onça, têm cabelo espetado, olhos em brasa e na boca, um pito...”

“Mas, aí, mestre Tatá, pelo que o senhor descreveu, era um Saci!”.

“E quem tem cabeleira hirta, é o Curupira”.

“Já falei que nem Saci nem Curupira! O Caipora é algo assim entre os dois... Como estava dizendo antes de ser interrompido...” (e nessas horas mestre Tatá fazia cara de muxoxo), “uma coisa que espanta Caipora é a claridade. Vixe...! quer ver ele correr? É só o caboco acender uma tocha ou fazer uma fogueira, que o 'corajoso' perde a coragem e não chega junto, não. Porém, azar o meu... desdenhara das artes dos índios de fazer fogo porque sempre carregava comigo, aonde quer que fosse, o meu lampião, mas, naquele fatídico dia, do qual, fique claro, me arrependo até hoje, esqueci-o ao pé da samaúma. Não tinha fumo e nem pinga, pois a sacola que carregava com todos os meus pertences, desaparecera como que por encanto. Acho que todos os seres da floresta haviam se juntado aquela noite só a fim de me punir. Assim, pensei eu, lá com os meus botões: ‘E agora? Caso perdido! O Caipora vai acabar comigo. Se eu sair daqui vivo, vou ficar panema1 até o fim de meus dias”.

O macaquinho também estava com medo. Assustado, se agarrava ao meu pescoço e guinchava baixinho. Foi aí, que de dentro da escuridão da mata, ouvi o barulho ensurdecedor das patas do caititu, correndo em disparada sob o estalo da vara de japecanga e eu, que sou homem de não se intimidar à toa, senti o sangue congelar nas veias ao ouvi-lo gritar: ‘Ahohó, ahohó, ahohó!...’

“Ah! Vai me desculpar outra vez mestre Tatá; mas quem monta porco do mato é Matintapirera”.

“Isso é que não! Quem monta porco do mato, grita deste jeito; agitando uma vara de japecanga 2 é o Curupira 3 e quer saber? Desde quando Caipora 4 passeia por estas bandas?”.

“Haja paciência! Ora, desde quando, desde quando? Desde sempre! Onde existe mato, existe Caipora, e já disse a vocês e vou tornar a dizer: nem Curupira nem Saci. Ca-i-po-ra, Caipora, que é algo assim entre os dois. De Matintapirera 5 não quero nem ouvir. Agora, se alguém tornar a confundir Caipora com Curupira e Saci 6; Saci com Curupira e Caipora; Curupira com Caipora e Saci; se, por causa disso, voltar a me interromper; vai levar uma sova de bengala”.

Diante das ameaças desaforadas, o povo se calava. Não porque temessem as bengaladas, mas sim porque aquela conversação era um ritual de todo dia, de toda semana, de todo mês, de todo ano. Aprendiam muito com mestre Tatá e seu jeito ranzinza. Eles o amavam, o respeitavam, davam ouvidos aos conselhos que passava em suas histórias, um jeito leve de dizer, que nesse mundo nada nem ninguém era perfeito e que mesmo assim ou apesar disso, era preciso fazer-se perfeito, era preciso anelar a perfeição. Então, sob o silêncio absoluto, onde nem as moscas ousavam fazer barulho, mestre Tatá, português com jeito de tapuio, de gestos rasgados e selvagens, próprios de quem sempre pertenceu a este chão, velho pajé abençoado, guardião dos segredos da magnífica tribo dos Manáo, dava prosseguimento ao assunto.

''A coisinha estava cada vez mais perto, a vara de japecanga, açoitando as árvores e ressuscitando os animais mortos. Num instante, a mata encheu-se de um mau cheiro terrível e, subitamente, por cima de minha cabeça, o caititu saltou com seu sinistro cavaleiro. Valei-me Deus! Arrepio-me só de lembrar! 

Invocando todos os santos assentei minha cabeça e meu coração, e pensei que o que funcionava com o Curupira podia funcionar com o Caipora. Assim, peguei um pedaço de cipó e rapidamente fiz um trançado, escondi-lhe as pontas e sem olhar, joguei-o para trás, daí gritei: ‘Caipora, Caipora se fores mesmo capaz, o trançado desfarás!' 

O desafio, não surtiu, à primeira instância, o efeito esperado. O Caipora voltou-se furioso em minha direção, disposto a me surrar. Ao estalo da vara, prontamente, pulei para trás e acoitei-me debaixo de um grosso tronco de árvore que havia tombado recentemente por causa das chuvas. O caititu, sem poder por freio à velocidade em que vinha, tropeçou no tronco, enterrando o focinho no lamaçal recente, jogando ao longe a feiosa e vingativa criatura. Ela caiu justo em cima do trançado e, curiosa, tomou-o em suas mãos. No mesmo instante esqueceu-se de mim, do macaquinho, dos seres da floresta e da sede de vingança. Enquanto se distraía, aproveitei e sumi, acertando o rumo de casa ao alvorecer. 

Sob os cuidados meus e de Aurora, o macaquinho cresceu, dócil e feliz. Mas, um dia, como de costume, fui buscá-lo para o nosso passeio matinal e ele lá, já não estava. Deixara o aconchego de sua casinha, especialmente construída, para subir nos galhos do abacateiro que havia no quintal. 

Considerávamos o abacateiro como um marco, uma divisa, que se interpunha entre nós e a floresta. Do abacateiro pra cá, havia a casa e a cidade com todos os seus afazeres e esquecimentos; do abacateiro pra lá, a floresta verde e infinita. E foi do alto da árvore que ele pode ver um mundo que ainda não conhecia. Havia vida interessante além do abacateiro...

Contemplou-me com aqueles mesmos olhos graúdos e tristes, que um dia fizeram dar-me conta do oceano de amor que carregava dentro de mim, e de como este sentimento assumia formas e atitudes diferentes; chegara o tempo de partir. Acenei-lhe um adeus e ele; como que entendendo o meu gesto, virou-se e timidamente pulou um galho adiante, logo depois pulou outro, outro, e mais outro... Esperei que seus guinchos de alegria desaparecessem nas profundezas da mata, confundindo-se a outros gritos, (quem sabe até aos do Caipora!) a outros ritmos, dando continuidade ao que fora, bruscamente, interrompido. Chegara, afinal, a minha redenção; Graças a Deus havia vida além do abacateiro; vida pulsante; verde e infinita. Graças a Deus, meu amigo descobrira que o mundo era grande; e ia além, muito além do pé de abacate. Nem sei por quanto tempo, fiquei debaixo do sol da manhã, só sei que saí somente quando a chuva começou a cair.

Sempre que contava aquela estória, a voz de mestre Tatá, tornava-se estranha e antiga; ecos de um mundo que não conheciam e que infelizmente não lhes era dado penetrar. Precisavam daquela veneranda e encanecida presença, para que tivessem acesso também a estes tesouros ocultos. Mas naquele dia, a voz do velho contador de histórias pareceu mais embargada, mais lenta, as palavras saiam como se pensadas pela língua, não pela mente. Mestre Tatá, não pertencia mais a este mundo. Há muito ele se fora, talvez levado pelo macaquinho, amigo inesquecível, de olhos graúdos e tristes.

Mestre Tatá levantou-se com dificuldade, com a ajuda de sua bengala de marfim, pôs o chapéu de volta à cabeça, despediu-se de todos e partiu. Foi seguindo pela rua sem calçamento, como fazia todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos. Quando acabava de contar uma história, não tinha mais nada a dizer, nem a fazer, ela bastava por si.

Mestre Tatá, velho português, de jeito tapuio, de gestos rasgados e selvagens, próprios de quem sempre pertenceu a este chão; pajé abençoado, detentor dos segredos das tribos dos Manáos, morreu nessa noite; morreu dormindo, deitado na rede, iluminado pela luz do lampião, embalado pelas doces canções que tanto gostava de cantar.

Dona Aurora, amor de muitos anos, consorte querida, disse que um sorriso lhe passeava nos lábios, última travessura de sua alma de menino.

***

1 panema: azarado

2 japecanga: salsaparrilha. Planta cujas raízes são usadas como depurativo.

3 Curupira: De curu (menino) e pira (corpo). Corpo de menino. Também chamado de BORARÓ pelos índios Tukano do alto Rio Negro. Em 1560 já era mencionado pelo padre José de Anchieta. Considerado como um duende protetor da floresta, tem os pés virados para trás, afim, de confundir os caçadores fazendo com que se percam. Surge e aparece num abrir e piscar de olhos. Para que não lhe façam mal os povos da floresta costumavam deixar presentes (penas e flechas) pelo caminho.

4 Caipora: (Do tupi kaa’pora; morador do mato) Ser fantástico proveniente da mitologia tupi. Sua aparência varia conforme a região. Geralmente assume a forma de uma mulher unipede, que anda aos saltos, ou então, surge como uma criança de cabeça enorme ou ainda como um caboclinho encantado. Também pode ser um homem gigante, montado num porco do mato, ou com um pé só; redondo, seguido por um cachorro papa-mel. (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira; NOVO DICIONARIO AURELIO da língua Portuguesa; 2ª Edição Revista e Ampliada; Editora Nova Fronteira).

5 Matintapirera ou Matintaperera; Vocábulo composto de duas palavras do idioma tupi. Mati (coisa pequena) e tapirêra (que mora em uma tapera) Pequena coruja agourenta (Stradelli), conhecida também por “rasga-mortalha”. Ave cuculídea (tapera naevia L.) de cor pardo-amarela (Câmara Cascudo). Ave trepadora; comedora de inseto; possui fama de descobridora de mananciais (Raimundo Moraes). Ave que tem por hábito colocar seus ovos em ninho feito por outros pássaros. Sin: saci, sem-fim e fenfém (Aurelião). Entidade do folclore, cheia de mistério (uma MAÍUA), correspondente ao Saci (Carlos Rocque). Walcyr Monteiro refere-se a uma história, recolhida em Inhangapi, em que a Matinta Perera era homem. Pássaro de canto agourento. (Altino Berthier Brasil; Amazônia Legendária; Poesanato; Arte e Cultura).

6 Saci-Pererê; Personagem do folclore, bastante popular. Tem apenas a perna esquerda e usa uma carapuça vermelha. Vive pitando um cachimbo. Assusta com muito gosto quem passeia pela floresta com má intenção. Dizem que protege os humanos de picadas de cobras e aranhas. Adora pregar peças e uma de suas brincadeiras prediletas é esconder-se num redemoinho ou fingir-se de vaga-lume para bisbilhotar a vida das pessoas. Dentro das casas, faz travessura que nem criança. À noite, monta num cavalo e corre com ele até o animal ficar cansado. 


quinta-feira, 5 de junho de 2008

COMO ADORMECER



Em noites de insônia inventei um modo de adormecer infantil em que me falo baixo e muitas vezes dá certo. É um pouco assim, se me lembro: “Retrogredi: sou uma criança pequena. Eu me deito e todos dormem comigo. Nada de mau pode acontecer. Tudo é bom e suave. A alma é eterna. Nunca ninguém morre. O prazer de ser criança é grande e doce. Deus se espalha pelo meu corpo: sua doçura é sentida como um paladar pelo corpo todo. Está bom, está bom. Deus me ilumina toda mas bem em penumbra para sua luz não me despertar. Sou uma criança: não tenho deveres só direitos. O prazer de estar viva é o de adormecer. Sinto esse viver lentíssimo como um sabor pelas pernas e pelos braços. Minha alma está enfim entregue. Nada mais tenho a entregar. Nada me segura mais: vou. Vou para a beatitude. A beatitude me guia e me leva pela mão. A beatitude em vida.

(Clarice Lispector)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

MAR ABSOLUTO

Espera! Pára um instante e ouve o que tenho a te dizer.

Para mim, falar de amor não é tão simples assim.


Meu coração está trancado, fechado, selado, por dentro e por fora.

Não tome por arrogância ou fuga esta minha explicação. Uma espécie de terror envolve a minha dor e não quero outra vez meter os pés pelas mãos.

Eis que a lua surgiu no céu e espero tornar-me uma lua ainda maior e seguir enfim o meu caminho, sem sobressaltos, sem peito apertado, sem pensamentos alegres ou sombrios. Uma vez só já me basta.

Uma lua maior que a lua que surge no céu, pretendo me tornar, livre de corpo e alma, a pairar, soberba e solitária, acima de outros mares. Meus olhos não hão de tornar a verter lágrimas amargas de rancor ou de saudade, já que os mares sob os quais pretendo pairar, não são desta terra, não pertencem a ela.

A paixão, o amor, ou seja lá o que for, quer tomar-me e lançar a longa e penosa busca por mim mesma no mar de lava em ebulição da incômoda incompreensão...

Desejo e não desejo acompanhar-te, para mim basta amar-te à distância, sem tormentos.

Serei como a lua que desponta no céu, talvez, uma lua ainda maior, porém, sem o lado escuro, oculto, tocada apenas pelo mar da tranqüilidade, pleno, sereno, único... absoluto.

terça-feira, 3 de junho de 2008

DIAS LONGOS... LONGOS DIAS...


Adormeci na fria varanda de uma casa que não era a minha e acordei para uma outra vida.
Dos sonhos sonhados poucos deles se realizaram, mas, isso é bom, pois significa que tenho mais sorte que a maioria...
Tive um amor, alguém que me abrigou em seu peito por algum tempo, porém, ele não suportou a angustia de viver em meio a dejetos e destroços de um mundo corrompido... Nem os acordes das canções arrancadas do seu instrumento tiveram o poder de o consolar, nem o amor foi mais forte que a dor.
Todo dia acordo, sozinha, na varanda fria, dessa casa que não é a minha, ergo a vista e só vejo a longevidade dos dias. Olho para trás e revejo a vida de outrora. A carga de lembranças ainda é muito sombria...
E as horas vão passando com a certeza de eternidade e a tristeza alegre da tarde que logo vira noite...
Verões de luzes, invernos de chuvas tanto faz... dias longos... longos dias!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

MEDITAÇÕES DE UM VAMPIRO


Luz e escuridão
Passos no chão
Olhos abertos
Ouvidos atentos
Desejos do coração...
Luz e escuridão
Passos e flores
no chão.

***

O morto-vivo andou por muitos caminhos,
até não saber mais para onde ir.
Céu e inferno entrelaçados, numa tiara mística,
arrebatam os devotos do bem e do mal.
Dentro do ser, a semente fugidia,
aguarda o excesso de luz se dissipar.

***

I

Em um vale abandonado por todos esquecido,
entre as ruínas de um castelo assombrado
medita um vampiro.
Imensa sombra, que do sol se oculta, ao longe escuta
a canção que vem do mar...
“Será alguma sereia também a se lamentar?!”
O vampiro suspira de desalento e solidão; só ele não chora,
de seu frio olhar, lágrimas não rolam.
Este sentimento de tristeza infinda não sabe de onde vem
e no fundo de sua mente procura uma resposta, porém,
ouve somente o eco das ondas do mar a bater nas rochas...
“Será algum navio a errar no mar bravio?!”
Lembra-se então de quando, ao ansiar pela luz, a treva se fundiu.
O vento bate nas janelas do castelo.
“Com que propósito, fui com a imortalidade amaldiçoado ?!
Apenas para espalhar a dor, o ódio e a morte e assim viver atormentado?!
O que estou a dizer... Viver não é bem a palavra certa... morto-vivo sou,
almejo o descanso eterno... Tantas perguntas, nenhuma resposta...
Amanhã, com uma estaca ao peito cravada, quiçá eu consiga a remissão...
(ah... mas a estaca dói tanto... é sacrifício demais para um velho coração)
então, melhor será esperar nascer o sol, daqui, do alto desta torre,
e eis que, uma vez, em cinzas transformado, meu espírito possa voar
em paz a busca de liberdade... Aí, talvez, quem sabe, aquele grande espelho,
há tempos pelo pó encoberto possa, enfim, refletir minha imagem”.

II
No alto de uma colina, num vale antigo,
existe um castelo em ruínas, onde habita um vampiro.
Quando o manto da noite cai e tudo envolve, trazendo paz e descanso aos homens,
no velho castelo o vampiro desperta e outra noite de tormentos recomeça.
Medita por entre os vazios aposentos o que o levou a tamanha solidão!
Eternamente condenado a vagar nas ruínas de um castelo assombrado.
Senhor de muitas formas, a nenhuma deseja mais.
Ladrão de almas, que de sangue necessita, tem horror a sua sina.
Está cansado de tanta imortalidade.
Lá fora os lobos uivam, chamando-o para a carnificina, mas hoje ele não vai...
O vampiro medita!

domingo, 1 de junho de 2008

MENINA, SOLIDÃO, SONHOS E BOLAS DE SABÃO


Fim de tarde. À porta de casa, a menina brinca com lindas e coloridas bolas de sabão. Hoje não há vento para levá-las para longe. Há só uma menina solitária e seu brinquedo predileto. Também há espaço, pássaros e árvores, mas o lugar é triste, a casa é triste, a tarde é triste. A solidão da menina me atinge profundamente.

As bolas, lindas e coloridas, partem, indiferentes. Iguais aos sonhos, algumas alcançam grandes alturas, subindo até o infinito; outras esbarram em folhas e galhos, espalhando para todo lado milhares de pequeninas bolhas; outras ainda se estatelam no chão, cumprindo assim, seu efêmero destino. 


Do livro MORONETÁ-Crõnicas Manauaras, Virgínia Allan, Editora Valer