segunda-feira, 19 de maio de 2008

BOIÚNA, A SENHORA DAS ÁGUAS


Nos profundos e escuros rios da Bacia Amazônica, repousa a Boiúna, a terrível senhora das águas. A palavra boiúna é de origem tupi e significa “cobra negra”. No aspecto simbólico, a boiúna encarna ambos os princípios, isto é, tanto o masculino quanto o feminino, o bem e o mal, possuindo os mesmos atributos da Cobra-Grande e talvez, por isso mesmo, as duas acabem confundidas em uma só. Segundo o mito Dessana, a cidade de Manaus, como tantas outras foi gerada dentro do ventre da cobra. Na longa viagem que faz, Manaus é a 13ª cidade a sair e se erguer de seu bojo. Vale ressaltar algumas das lendas que desde então, vive no imaginário popular, enriquecendo a cultura e o folclore.
Sobre a Cobra-Grande, existe uma estória de que, há muito tempo, numa certa tribo de nossa terra, vivia uma mulher feia e má; devoradora de carne humana; nutrindo especial interesse por crianças. Quanto mais tenra a carne, mais lhe apetecia o gosto. Assim, a tribo vivia em constante pavor e para acabar com tamanha aflição, resolveram jogá-la no rio para que, dessa forma, morresse afogada. Porém, o astuto Anhangá, o espírito do mal, que tudo faz para enfraquecer e contrariar a vontade dos homens, não a deixou morrer, resgatou-a e casou-se com ela. Juntos tiveram um filho.
Anhangá encantou o menino em cobra para que ele pudesse viver livre nas águas do rio. Mas, eis que o que é pequeno se faz grande e logo o rio não pode mais contê-lo. Os peixes desapareceram, pois a cobra, em busca de comida, os engolira. O rio empobreceu e a cobra faminta, cresceu os olhos para além, emitindo uma luz fosforescente que tudo vasculhava.
Um dia, a mãe da Cobra-Grande morreu e seu ódio e dor foram inimagináveis. De seus olhos, lágrimas não jorraram. Contorcendo-se, disparou em direção ao céu flechas de fogo e desde então, para alivio de todas as nações indígenas, recolheu-se às profundezas das águas, levantando-se de lá somente para anunciar a chegada do verão ou para clarear com a luz dos relâmpagos que chispam de seus olhos em noites de tempestades.
Os ribeirinhos contam que já cansaram de se deparar com ela na forma de embarcação fantasma, vagando perdida pela noite, fazendo um barulho de enlouquecer; os olhos, como dois faróis penetrando a escuridão... Nestas horas, é preciso ter cuidado, pois a encantada engole tudo o que vê pela frente. Transforma-se em qualquer coisa, iludindo os mais desavisados.
Para alguns, a Cobra-Grande seria Tuluperê, uma serpente vermelha e preta; misto de sucuriju e jibóia. Era muito cruel, Tuluperê. Afundava embarcações e comia gente. Tal monstro vivia no rio Paru de Leste, na divisa com o rio Axiki. Certa feita, os índios da nação Wayana, foram pedir ajuda ao Xamã, a fim de matá-la, fato que conseguiram após desferirem nela muitas flechas, porém, ficaram embevecidos com os desenhos de sua pele, guardando-os na memória, os reproduziram depois na arte da cestaria.
O caboclo da região, ora acredita em sina, encantamento que pode vir a ser quebrado; ora acredita que a serpente é a pura encarnação do mal. Sob estas formas temos a estória do jovem Honorato, que seria filho da boiúna com uma índia.
Diz a lenda, que a jovem pariu um casal de gêmeos os quais chamou de Honorato e Maria Caninana, mas a mãe, temendo, na aldeia, pela vida das crianças, pois estas já começavam a apresentar as características dos ofídios, levou-as até às margens de um rio e abandonou-as a própria sorte.
As crianças se criaram, com Honorato tornando-se bom e forte e Maria ficando cada vez mais cruel. Finalmente, Honorato mata Maria e passa a vagar sozinho pela imensidão das águas, à espera que alguém o desencante.
Há uma versão de origem européia, onde Honorato é um jovem sedutor e irresponsável, filho de um português abastado dono de um seringal.
A lenda da Cobra-Grande encontra-se ainda ligada ao aparecimento da noite, quando sua filha, ao casar-se, pede ao marido que vá buscá-la nos domínios de sua mãe, no fundo das águas. Todavia, o moço, encarrega três amigos para cumprirem a delicada missão.
A boiúna entrega-lhes a noite presa dentro de um caroço de tucumã, selado com breu, recomendando-lhes expressamente que de modo algum cedessem a tentação de abri-lo, já que somente sua filha poderia fazê-lo. Os jovens, entretanto, no caminho de volta, encostam o ouvido ao caroço de tucumã e ouvem um barulhinho encantador... é a noite, cantando a sua canção. Não resistindo mais, os rapazes, de comum acordo, fazem fogo e derretem o breu. Rapidamente, a noite foge e como castigo, os três amigos são transformados em macacos.
No folclore, temos ainda M´boy, o deus serpente, filho de Tupã, o grande legislador, governante do mundo, assim acreditavam os índios caiagangues, habitantes das margens do Rio Iguaçu, e o boitatá, que na região Nordeste possui várias outras denominações, tais como: jã-de-la-foice, fogo corredor, baitatá e etc... é um mito quase todo de origem indígena; uma espécie de “cobra de fogo” que vadeia pelos campos, expulsando aqueles que o incendeiam inutilmente. Algumas vezes, o boitatá transforma-se em um grosso madeiro, em brasa viva, que mata os agressores por combustão, podendo até assumir a forma humana, mantendo, entretanto, a luminosidade que lhe é característica.
A Cobra-Grande, de uma forma ou de outra, está presente, enrodilhada desde o principio dos tempos, nos relatos de vários povos, na memória universal.
Esta introdução foi apenas uma breve apreciação do que é possível saber sobre um dentre os vários seres fabulosos, que habitam e instigam a nossa imaginação e aqui, em nossa casa, no seio da floresta, que também é a Casa da Mãe-Cobra, as recordações estão sempre presentes, envolvendo-nos em sonhos, nos preparando e devolvendo-nos ao mundo real.
É sina alegre de criança cabocla, da beira do rio, ouvir os cantos e os contos da floresta; é sina alegre de criança cabocla saber e recordar que antes de habitar a floresta, habitou primeiro o ventre acolhedor da Boiúna, a Mãe-Cobra, geradora de vidas, a nossa negra senhora das águas.


(Nota: Imagem da Cobra Grande desenvolvida para o portal do Pará opaidegua.com, desenhada pelo artista Fernando Brito)
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