quinta-feira, 8 de maio de 2008

DECISÃO ADIADA


Francisco era um desses homens em cuja mente os bons pensamentos nem sempre fincavam raízes. Possuía um espírito débil, fragilizado por uma infância protegida e ao mesmo tempo, carente do carinho e amor tão necessários que só os pais conseguem dar nessa etapa da vida.
Já homem feito, uma loucura contida, quase imperceptível, se instalara em sua mente, adoecendo-lhe a alma e o coração, cobra enrodilhada, serpente malfazeja... Às vezes, lembrava-se do que dizia seu amigo Gaston sobre a mente: “O processo de funcionamento de nossa mente é ainda um mistério, mas, ouso compará-la a um castelo, devidamente projetado e arranjado para que dele possamos fazer o melhor uso, entretanto, o que fazemos? Ao não entendermos o processo de funcionamento e toda a sua vasta potencialidade; deixamos o castelo desprotegido, à mercê de toda espécie de invasores e sob as mais diversas influências, que acabam por dele se apoderarem, tornando-se então senhores absolutos”.
Bem, Francisco registrou esse modo de pensar, mas decididamente não o entendia. Processos mentais... Gaston e suas metáforas... Francamente, ele, Francisco, estava mais para prisioneiro do castelo do que o único senhor...
E foi assim que um dia, enfrentando a fila quilométrica do supermercado; irritado com a voz anasalada da esnobe atrás dele, teve um pensamento amalucado, para ele e talvez para muitos nem tanto assim, pois pensou naquilo com a naturalidade de quem diz que vai tomar banho ou preparar o jantar.
“Vou acabar com tudo... melhor assim, de hoje não passa... não agüento mais.... todo santo dia é a mesma coisa; as mesmas chateações... a mesma droga de vida... será que existe algo mais além de um dia atrás do outro? Pronto, está decidido, vou fazer isso assim que chegar em casa”....
Quem conhece Francisco (Chico para os íntimos) sabe de sua propensão para o drama... num instante, pronto... para ele uma situação boba vira um caos... um dramalhão...
Tá... conta paga, mercadorias embaladas, dirige-se ao carro. Pra sair do estacionamento... uma novela; pra escapar do trânsito.... uma vida... vida que logo deixaria... “iam ver”... era só chegar em casa... “ia chutar o balde de uma vez”... “mandar tudo pelos ares... pros quintos dos infernos...”
Mau-humorado estaciona o carro; passa pelo porteiro, sussurrando “boa noite” de forma não muito amigável.
Em frente ao apartamento procura a chave da porta no bolso da calça. Por pura falta de praticidade (ou seria preguiça mesmo), ele não a põe no chaveiro do carro, junto às outras... mas, “ah... está aqui... finalmente”.
Uma vez no conforto do lar pensa em como dar cabo de sua existência... “Bem, de qualquer modo, será melhor decidir isso de barriga cheia... é melhor preparar o jantar... daqui a pouco Ana Lúcia chega com as crianças... estarão famintas... mas, o que era mesmo que eu ia fazer?”
Pensando, vai à cozinha, abre o armário e tira uma taça de cristal onde serve o vinho francês, presente de Gaston, em seguida vai à geladeira e tira de lá o peixe que havia deixado de um dia pro outro, descansando em um molho com ervas, sal, limão e azeite de oliva, Francisco adora bancar o gourmet, para um preparo especial, afinal, esta será sua última refeição e “depois Ana Lúcia e as crianças vão adorar”... Quando todos estiverem dormindo, ele porá seu plano em ação... se existir vida após a morte vai sentir tantas saudades.... infelizmente, a vida é assim... eles ficarão bem...
Nisso, o telefone toca (é o Gaston). Ana Lúcia chega com as crianças; o almoço fica pronto e depois de assistirem, todos juntos, um pouco de televisão se preparam pra dormir... Isto feito, Francisco, já de madrugada, resolve fazer o que pensou o dia inteiro... então se levanta e vai até a cozinha beber água; abre a porta do banheiro... espera aí, ainda não havia decidido... “como ia ser? Se enforcar; cortar os pulsos? Enfiar uma faca no peito? Brrrr.... melhor se jogar pela janela...mas eles moram no primeiro andar, subir para o alto do prédio despertaria desconfianças do porteiro ou de qualquer outro que estivesse por ali, fosse chegando de uma farra ou fosse porque estivesse com insônia e Santo Deus... suicida que se preze, não pode ser interrompido... mas, pular?... ele ficaria todo amassado, irreconhecível... não... deve existir uma forma mais elegante”.
Sai do banheiro; vai para sala e espia pela janela... acende um cigarro e pensa... “o dia está quase amanhecendo... Há... já sei... veneno... veneno sim... é a solução ideal, mas qual? Tem que ser um que não provoque dor; quero estar bonito dentro do caixão. Assim que chegar ao escritório, vou fazer uma pesquisa na Internet. É... acho que vai fazer um belo dia... é melhor descansar um pouco antes de sair”.
Não demora muito, toca o despertador. Francisco acorda, vai para o banheiro, faz a barba, toma banho... sai do banheiro; entra no quarto, troca de roupa e segue para a cozinha... mesa do café posta; família reunida... que belo quadro!... Pensa Francisco, que então sorri; Francisco é feliz e ele sabe disso, nesses instantes de plena harmonia, então reconhece que há, na vida, algo mais além de um dia atrás do outro, nem sabe porque havia pensado em suicídio ...
Saem todos. À porta do prédio, Ana Lúcia e as crianças seguem juntas enquanto ele dirige-se só ao seu carro. Naquela bela manhã, fresca e luzidia, o sentimento gratificante é logo substituído pela irritação de um trânsito que não anda...; pedintes nos sinais... e o perigo de ser assaltado ou seqüestrado a qualquer hora, ou pior... assassinado... O inferno e as preocupações que permeiam uma grande cidade recomeçam e elas tomam conta da cabeça de Francisco “Será que Ana Lúcia e as crianças estão bem?”
Pega o celular e tenta ligar, mas logo é perturbado pelo estressado de trás... haja paciência e Francisco, diante do caos nosso de cada dia, é novamente assaltado pela vontade de desistir...
No escritório, atrasado, sobre a mesa, uma pilha de papéis... A pesquisa sobre venenos ficará para mais tarde, porém está decidido de hoje não passa... ainda hoje ele manda tudo pro inferno, inclusive a ele mesmo...
Saiu tarde do escritório... ainda bem que não precisava passar no supermercado... que trânsito caótico... tinha que chegar logo em casa e pesquisar sobre os venenos na Internet ou seria melhor comprar um livro sobre o assunto? Será que preparo frango ou carne? Devia ter perguntado a Ana Lúcia.
Francisco chega a casa pensando em sua pesquisa e no que fazer para o jantar. Irritado, estaciona o carro, dá um “boa noite” arrastado ao porteiro e sobe para o apartamento. Demora a encontrar a chave (estava no bolso de detrás da calça) mal entra, o telefone toca (não era o Gaston) era Ana Lúcia avisando que ia jantar com as crianças na casa da mãe... Pronto... Francisco tem muito tempo para se dedicar à sua pesquisa e fazer o que está há muito querendo fazer... mas é tão bom estar em casa... e agora que tem tempo de sobra, vai, antes, tirar uma soneca... dormiu tão pouco a noite passada... descansado poderá pensar melhor... “vou descansar aqui mesmo no sofá... quando acordar, entro na Internete... não... não .... de qualquer jeito, vou ter que preparar o jantar... acho que será mais fácil dar um pulo na livraria...”
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