terça-feira, 27 de maio de 2008

CASA VAZIA



I

Casa velha, numa rua estreita, desconsolo para os que passam!
Quem te vê assim tão triste e magoada, não imagina teu passado venturoso.
Sim, feliz, foste um dia; pintada de azul. Por teu quintal, cheio de frutas e flores, soaram risos infantis, cantaram os passarinhos, voaram as borboletas...
Casa velha de minha infância, não há mais conforto sob o teu teto, não há mais segurança entre tuas paredes, mas o piso gasto e vacilante, ainda guarda os ecos de passos antigos.


II


Os passos ecoaram dentro da casa vazia. Agora seria sempre assim. A casa já não responde ao meu chamado. Está em ruínas. Breve, um novo edifício se erguerá sobre o mesmo chão em que outrora, passara os melhores anos de minha vida.
Ao entrar, deixei a porta e o velho portão abertos. Talvez, inconscientemente, esperasse que uma das crianças entrasse correndo, ou então esperasse outra vez ouvir os passos e a voz de meu pai chamando por minha mãe, avisando que havia chegado. Mas, nada disso aconteceu e, de repente, me vi sozinha frente ao meu passado. As grossas paredes não mais ostentam os retratos antigos, e sua memória está gasta; envelhecida e cheia de musgo e é assim que eu também me sinto. Acho tudo muito triste, e vago sob a penumbra como um espírito lamentando-se no limbo.
Quando menina ainda, a caminho das aulas de inglês, atalhava por dentro do cemitério, onde o imenso portão de ferro estava sempre aberto. Descansava da vida visitando os mortos. Passeava, olhando os retratos nas sepulturas, detendo-me, durante algum tempo, sentada num banco, quando um ou outro rosto me prendia mais a atenção. Via-os todos: jovens, velhos, crianças, e me punha a imaginar como poderiam ter sido suas vidas.
As casas são como os túmulos, do mesmo modo que a vida é uma preparação para a morte! Esta afirmação pode parecer mórbida para alguns, mas, de fato, não o é. A casa é o lugar para onde voltamos depois de um exaustivo dia de trabalho, é nela que nos recolhemos para encontrarmos a paz.
Casas altas, casas baixas, casas ricas, casas pobres; luzes nos quartos, cortinas abertas, cortinas fechadas, música, portões abertos, portões cerrados; longas avenidas, sombrios viadutos, carros que passam velozes. Para onde irão? Para onde iremos todos?...
Os viadutos e pontes dão-me a sensação de que sempre nos conduzirão a um lugar melhor, mas ao mesmo tempo parece-me que percorrê-los é bastante assustador! Perto desta minha velha casa, hoje há um viaduto.
Lentamente, dirijo-me à sala de jantar e revejo na memória, meu pai comemorando feliz e esperançoso, a entrada de um novo ano. Revejo a avózinha, de sorriso doce e infantil; sentada à cabeceira da mesa, pacientemente esperando a ceia, enquanto todos à sua volta fazem planos de uma vida melhor. Revejo meu marido, tão jovem e belo... Não sei porquê mas os finais de ano possuem essa magia de fazer-nos acreditar que tudo será diferente e que todos os sonhos serão possíveis. Sentimo-nos poderosos, invulneráveis. Nenhum mal poderá nos atingir.
Entra ano e sai ano, e os que antes comemoravam comigo uma nova etapa, cheia de promessas, há muito descansam em suas tumbas. Espero, que ao sair daqui não carregue mais nada. As lembranças pesam-me, quase me impossibilitando de caminhar. É preciso deixar tudo para trás. É preciso deixar os mortos. Paz! Paz para os mortos.
De alguma forma sei que eles ajudam-me, guiando meus passos. Ensinaram-me que há um jardim a ser cultivado dentro de mim, dentro de cada um de nós. Lembrarei da casa de minha infância como mais uma flor no meu jardim, sem tristeza, sem dor. Uma flor ofertada pelos mortos, uma flor regada por lágrimas, cultivada com trabalho intenso; doces sofrimentos e amor sem fim.
Saio, batendo a porta e o velho portão enferrujado, que reage à minha despedida com um rouco rangido. Digo adeus ao abieiro e a antiga goiabeira tombada no quintal, companheira muda e fiel das muitas travessuras. Digo adeus ao enrugado pé de manga que plantei com minhas mãos, ajudada por meu querido pai, e do resto, despeço-me em silêncio, de coração para coração, e enfim, recomeço minha jornada em direção ao viaduto.
Postar um comentário