sábado, 31 de maio de 2008

O REI E A DONZELA [1]


Um rei velho e cansado, apaixonado
Uma jovem bela e etérea, ainda donzela
Ela dança com a morte
A morte dança com ela
A morte rouba a donzela
Debaixo da língua, um segredo
Na mente ativa, a revelação
No fim da busca, o desassossego
No fim da busca, a distorção
Um rei velho e cansado, apaixonado,
Para sempre, extasiado, às margens de um lago.


*****

Conta-se que um dia, o rei Carlos Magno foi assaltado por uma súbita, desvairada e violenta paixão.
A dona de seu atormentado e descompassado coração era uma bela flor alemã, ainda donzela, e o rei, mesmo velho e cansado, apaixonado, por conta disso, vivia amargurado. Ninguém conseguia livrá-lo desse estranho sentimento.
O rei só estava feliz e sossegado se mergulhado nas profundezas dos claros olhos da amada, rosa branca, pálida ... Só estava feliz, se tocasse as loiras e perfumadas madeixas de sua longa cabeleira... Alheio a tudo, assim, se esquecia ele do reino, se esquecia ele de si, por inteiro.
Logo se preocuparam os notáveis barões da corte com a recente debilidade do soberano... o que seria do reino com um rei frágil, sem dignidade, imperfeito? Outrora, valente guerreiro, cavaleiro triunfante, agora um velho senil, completamente transtornado, dominado por uma paixão amorosa, ardorosa, perigosa...Urgiam serem tomadas imediatas precauções... Então, eis que a morte, para surpresa de todos, faz sua visita “inesperada” e era uma vez uma jovem bela e etérea, ainda donzela...
Ahhh... suspiraram os barões aliviados, pensando eles que, terminara enfim, o desvario efusivo do velho rei ensandecido... Terminara? O que são os tormentos? Uma vez que nos chegam não nos deixam tão facilmente... e às vezes, “a emenda sai pior que o soneto”... Não... pois, outra vez, tornaram a se desesperar os cuidadosos barões da corte ao verem o rei, fora de si, manter a jovem morta, embalsamada, cuidadosamente guardada em uma sombria câmara mortuária, com o rei mantendo-se ali, nem um segundo se afastando, nunca, jamais, querendo partir. “Sacrilégio”, diziam uns... “sacrilégio”, diziam outros... “sortilégio”, dizia consigo o arcebispo Turpino... “sortilégio de amor e encanto... obra de magia negra poderosa... só há de ser isso”... repetia o arcebispo... “não é normal tanto apego, tão louco desespero por um corpo inanimado ... sortilégio de encanto e amor, sim... o rei só pode estar enfeitiçado, cruelmente amaldiçoado por alguma alma marcada, tocada pela sombra do demônio, que, solitário e invejoso, está sempre à espreita,vigiando”.
E assim pensando, o ponderado arcebispo, o cadáver tratou de examinar, procurando de cima abaixo onde poderia estar escondido o objeto mágico que mantinha prisioneiros o corpo e a mente do infeliz soberano. O objeto, pensava ele, haveria de encontrar e dele se livrar sem demora, libertando, dessa forma, o pobre rei, que já sofrera bastante nessa lida... por Deus, certamente... era o que aconteceria.
O arcebispo, tanto procurou que encontrou; oculto, sob a língua da donzela morta, deparou-se com o segredo: um anel maravilhoso, com uma bela pedra preciosa engastada, mas ai, pra quê... o sortilégio de amor e encanto não acabou ali... e lá o arcebispo Turpino, imediatamente, viu-se assediado pela luxúria incontida do velho rei Carlos Magno.
Tentando livrar-se do transtorno, o lago Constança, pensou o arcebispo, seria a solução final para tal embaraçosa situação pela qual acabara sendo levado e o santo homem, desesperado, atirou o anel no lago que afundou rapidamente... Sim... Constança, o nome do lago, e também nome de mulher, foi a solução para o arcebispo Turpino, mas não a salvação de Carlos Magno, que, mesmo velho e cansado, apaixonado, postou-se para sempre sentado às suas margens. Para sempre aprisionado ao macabro sortilégio de loucura, amor e encanto que emanava das profundezas e contaminava a pureza das águas.
***
[1] Lenda sobre o imperador Carlos Magno, citada por Ítalo Calvino em seu livro SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO; pág. 45; trad. Ivo Barroso; Editora COMPANHIA DAS LETRAS.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

CAROLINA [1]



Da minha janela vejo Carolina donzela;
Um pôr de sol; um beijo; uma azaléia.
Da minha janela vejo a praça e os olhos de saudades
da mulata, vejo a banda e a vida passarem.
Mas, oh, que pena... Só Carolina não viu...
E o tempo passou e tudo levou
Só Carolina ficou.
E eu, com meus olhos de expectador, devagar fechei a janela,
lá deixando a donzela à mercê do tempo e da dor.

[1]À partir da canção CAROLINA, de Chico Buarque de Holanda.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

A LUA E EU


Lua, lua, tão fria e distante, num céu coberto de estrelas;
quero pedir-te amiga e senhora, tua benção e proteção.
Olha por mim, dama caprichosa; guia-me com tua luz
e no caminho do bem me conduz.


****

A lua branca boiou no céu, parecendo um barquinho
de papel, navegando num imenso mar azulado!
Imenso mar azulado que percorro, pilotando, com o coração

a branca lua, vagando na solidão.

****

Da janela
olhos cansados contemplam
a lua de outono

***

Vaga lua
Vago lume
Vagalume

Vagar distante
Vagamente delirante
Vagar errante

Vago espaço
Aberto
Aéreo
Solitário

Vaga vida
Vago sonho
Vagar tristonho
Vagar medonho

Vago mundo
Vagabundo

Vago norte
Vaga sorte
Vaga morte
Vago mistério

Indecifrável
Impenetrável
Silencioso
Eterno
Profundo

quarta-feira, 28 de maio de 2008

SALVADOR DE SI MESMO



Ao reler certo dia o livro SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO, de Ítalo Calvino Companhia das Letras, 1993, tradução, Ivo Barroso) no artigo sobre LEVEZA, não pude deixar de pensar na comparação que ele faz do mundo transformado em pedra. Sim, para ele, o mundo inteiro às vezes, parecia transformado em pedra, “mais ou menos avançadas segundo as pessoas e os lugares”, tal petrificação, ainda segundo ele, embora lenta, “não poupava nenhum aspecto da vida, como se ninguém pudesse escapar do olhar inexorável da horrenda Medusa”.
Relembremos o mito: Perseu, o herói grego (não preciso, creio, dar aqui nenhuma definição da palavra herói, mas escreverei uma frase de Joseph Campbell que diz que um herói é o homem da submissão autoconquistada e se quiserem saber mais, tipo a quem ou a quê deve ele, o herói, submissão terão de ler mais o dito autor) era filho de Zeus e da mortal Dânae, filha de Acrísio, rei de Argos, que um dia, temendo ver cumprida a previsão de um oráculo, que lhe predisse que Dânae teria um filho que lhe usurparia a vida e o trono, mandou encerrá-la numa torre. Mas, para Zeus, o que é impossível? Assim, em forma de uma chuva de ouro, Ele caiu sobre Dânae, engravidando-a .
Acrísio, desesperado, pegou mãe e filho e após colocá-los dentro de uma arca abandonou-os, à deriva, ao mar. Porém, a correnteza, em vez de virar a embarcação e afogar mãe e filho, concretizando enfim, o desejo de Acrísio, levou-a até a ilha de Sérifo, aonde o rei Polidectes, apaixonou-se pela bela Dânae.
Polidectes, com o passar do tempo, por ciúmes, quis afastar Perseu de sua jovem mãe e, assim, encarregou-o de uma missão; se diga, porém, missão esta primeiramente sugerida pelo próprio Perseu e cobrada em seguida pelo rei tirano, que era trazer a cabeça da Medusa, a Górgona mortal, mas, cujo olhar fulminante era capaz de petrificar; feito que ele consegue, graças a ajuda dos deuses Hermes, Atena e Hades.
O herói Perseu, mata a Górgona e carrega a cabeça consigo, dentro de uma sacola presa a cintura e nos momentos de perigo, para sua proteção é capaz de usá-la de maneira sábia, evitando, de olhá-la diretamente, seguindo sempre o enunciado dos deuses. Seu escudo de bronze é o seu espelho, empunhado por Atena, a deusa da divina sabedoria, e é por ele que é capaz de encarar o terror. Perseu é capaz de entrar e sair do mundo sombrio, sem maiores danos, trazendo consigo valiosos, belos e úteis presentes, inclusive Pégaso, o cavalo alado, benquisto das musas, que nasce do sangue da Górgona abatida, o animal é filho da maldita. Porém, Perseu o domina e, cavalgando-o vai além das nuvens. Claro que tais ações não são facilmente praticáveis e por isso Perseu é um herói.
Bem, Ítalo Calvino se absteve de interpretar o mito, coisa que aconselha todo bom contador de histórias, ele queria apenas fazer uma relação alegórica do poeta com o mundo e o processo de continuar escrevendo.
Eu, por outro lado, vejo também uma relação, de certa maneira proposta pelo próprio Calvino, ao ver o mundo em vários estágios de petrificação. Nos tempos atuais, aos poucos, vamos sendo petrificados, as pessoas de um modo geral, vão tomando a forma da Górgona ou das estátuas, mudas, petrificadas, em maior ou menor grau. Ficamos alheios e estranhos ao nosso mundo ou ao que está acontecendo ao nosso lado. Desistimos da roupa de herói, quase não a vestimos mais, pois a roupa encolheu e agora cabe em muito poucos. Sobra-nos o papel da Medusa ou de meras estátuas. Seres humanos frágeis, fracos, e das tarefas que nos impomos ou das que nos são impostas, não damos conta, e, incrédulos, renunciamos aos conselhos dos deuses... Quando olhamos no espelho a imagem que nos aparece, distorcida, é a do monstro. Como fugir? Como escapar disso? Dessa infame e vil transformação operada por nós mesmos? O herói deve nascer; crescer em seu heroísmo e ser ultrapassado... Temos capacidade de voar muito alto, em um cavalo alado. Mas, por onde começar? Minha sugestão é que comecemos por onde começou Perseu, abandonando um mundo pronto e protegido, mas cheio de armadilhas e ilusões, para partir em busca do seu próprio, da construção de seu mundo, não ideal, mas, real. Na jornada necessária que precisamos empreender, temos que mergulhar, “encarar” e se possível sobrepujar o sombrio, um dever para com nós mesmos e para com os que nos cercam.
No caso do herói, tirar a cabeça da Medusa da sacola e mostrar o próprio horror só em casos extremos, realmente necessários. A minha dor, ou a minha vitória, ou ainda a dimensão do meu horror, não precisam petrificar a ninguém, gratuitamente, já que isso elas mesmas já fazem por si, pois ao dar maiores dimensões aos seus desejos, medos e dramas; correm elas o risco de se metamorfosearem na terrível Medusa, isolando-se, vivendo a parte e, ao contrário do herói, que escolhe a quem petrificar, acabam por transformar a qualquer um em pedra, ao menor sinal de aproximação. Há quem queira esse fardo...
Ítalo Calvino remete-nos também em seu artigo, a leveza do ser, do pensar, do elevar-se além das precárias condições humanas e a partir das observações de Milan Kundera mostrar como a leveza pode se tornar insustentável tal o peso que ela demonstra ter com o passar do tempo. Um peso de pedra. Mas, lembrem-se que Calvino falava de literatura, eu estou a ponderar sobre as situações humanas, mas, no final, ambas nem diferem tanto assim uma da outra. Com o passar do tempo quase tudo se petrifica ou perde a leveza de ser; o mundo, as pessoas, a sabedoria e as relações... e ficamos a espera de um herói que nos salve, de alguém que, em vez de pedras, mos mostre um jardim, cheio de flores, belas, coloridas e leves já que não somos capazes de cultivar e manter o nosso próprio jardim; fugimos das aulas de jardinagem. O mestre ficou sozinho no quintal vazio e em lugar das flores vamos colocando grandes, feias e pesadas estátuas de pedras.
Farid-ud-din-Attar, em seu livro O Parlamento dos Pássaros (Attar Editorial), conta-nos que no alto de uma montanha, na China, vive um homem velho que chora sem parar. Entretanto, mal suas lágrimas tocam o chão, convertem-se em pedras que ele torna a recolher. A verdade nua e crua, porém é que nem todos nós podemos ser que nem Perseu, herói imbuído de generosidade e delicadeza para com todos os seres mesmo para com os monstros, como diz Calvino, e nem todos conseguimos ser hábeis jardineiros; fazemos o que podemos, vamos até onde nos compete chegar nossa frágil paciência/resistência/competência. Algumas vezes, incapazes de matarmos nossos monstros, destruímos nosso jardim, pisoteamos nossas flores, acabando com o pouco que nos resta, pois a impotência nos tira a vontade de seguir adiante. O sentimento de confusão, nulidade, exclusão, faz com que abandonemos o mundo em que se precisa viver sem a ele pertencer, e, afastados de qualquer convívio humano, por fim, morremos... esquecidos, longe da piedade de qualquer bom samaritano. Antes disso, entretanto, acontecer, será que nos perguntamos o que podíamos ter feito com nossa confusão? Como nos livraríamos dela? Tentamos, de verdade, encontrar ou saber sua causa e dar-lhe uma solução? O porquê de ter surgido e permanecido? Se a reposta é sim, deveríamos ter decidido logo o que poderíamos ter feito a respeito, pois só os equivocados criam e sustentam sua própria confusão, embora façam crer a todos que tentam desesperadamente dela escapar. Uma pessoa confusa é, antes de tudo, alguém que não presta a devida atenção a si mesmo, a confusão se dá porque tal pessoa não obteve o que queria, temos o costume de não percebermos que somos postos à prova a todo instante, tanto pelo que queremos quanto pelo que não queremos, paciência para com um, paciência para com o outro estado de coisas, querer /não querer... Como dizia o grande Bayazid (morto em 875 d.C.) “deves sentir teu próprio nada”.
Tais sentimentos e estados já citados deveriam ser pensados antes como formas de proteção e usados como escudo, como faz Perseu. Todavia, vamos parar por aqui. De repente, eu é que me verei metida em confusão por não saber mais o que dizer. Parece que tenho toda a sabedoria do mundo a disposição. Tenho, tenho sim, mas não posso passá-la adiante e nem sei ainda direito como usá-la em meu próprio proveito, não sou mestra de nada, nem do ABC, e cada um tem que buscar em si os meios de empreender e chegar ao fim de sua viagem, sentindo que cumpriu, com efeito, a sua missão. Busque a sua compreensão naquilo que diz respeito a você e sua busca por auto-conhecimento. É possível escapar do olhar aterrador da Medusa; é possível escapar de nos transformarmos no monstro de olhar aterrador;um olhar humano, condescendente, mas atento, sobre tudo, principalmente sobre nós mesmo já é um começo, e que começo...!

terça-feira, 27 de maio de 2008

CASA VAZIA



I

Casa velha, numa rua estreita, desconsolo para os que passam!
Quem te vê assim tão triste e magoada, não imagina teu passado venturoso.
Sim, feliz, foste um dia; pintada de azul. Por teu quintal, cheio de frutas e flores, soaram risos infantis, cantaram os passarinhos, voaram as borboletas...
Casa velha de minha infância, não há mais conforto sob o teu teto, não há mais segurança entre tuas paredes, mas o piso gasto e vacilante, ainda guarda os ecos de passos antigos.


II


Os passos ecoaram dentro da casa vazia. Agora seria sempre assim. A casa já não responde ao meu chamado. Está em ruínas. Breve, um novo edifício se erguerá sobre o mesmo chão em que outrora, passara os melhores anos de minha vida.
Ao entrar, deixei a porta e o velho portão abertos. Talvez, inconscientemente, esperasse que uma das crianças entrasse correndo, ou então esperasse outra vez ouvir os passos e a voz de meu pai chamando por minha mãe, avisando que havia chegado. Mas, nada disso aconteceu e, de repente, me vi sozinha frente ao meu passado. As grossas paredes não mais ostentam os retratos antigos, e sua memória está gasta; envelhecida e cheia de musgo e é assim que eu também me sinto. Acho tudo muito triste, e vago sob a penumbra como um espírito lamentando-se no limbo.
Quando menina ainda, a caminho das aulas de inglês, atalhava por dentro do cemitério, onde o imenso portão de ferro estava sempre aberto. Descansava da vida visitando os mortos. Passeava, olhando os retratos nas sepulturas, detendo-me, durante algum tempo, sentada num banco, quando um ou outro rosto me prendia mais a atenção. Via-os todos: jovens, velhos, crianças, e me punha a imaginar como poderiam ter sido suas vidas.
As casas são como os túmulos, do mesmo modo que a vida é uma preparação para a morte! Esta afirmação pode parecer mórbida para alguns, mas, de fato, não o é. A casa é o lugar para onde voltamos depois de um exaustivo dia de trabalho, é nela que nos recolhemos para encontrarmos a paz.
Casas altas, casas baixas, casas ricas, casas pobres; luzes nos quartos, cortinas abertas, cortinas fechadas, música, portões abertos, portões cerrados; longas avenidas, sombrios viadutos, carros que passam velozes. Para onde irão? Para onde iremos todos?...
Os viadutos e pontes dão-me a sensação de que sempre nos conduzirão a um lugar melhor, mas ao mesmo tempo parece-me que percorrê-los é bastante assustador! Perto desta minha velha casa, hoje há um viaduto.
Lentamente, dirijo-me à sala de jantar e revejo na memória, meu pai comemorando feliz e esperançoso, a entrada de um novo ano. Revejo a avózinha, de sorriso doce e infantil; sentada à cabeceira da mesa, pacientemente esperando a ceia, enquanto todos à sua volta fazem planos de uma vida melhor. Revejo meu marido, tão jovem e belo... Não sei porquê mas os finais de ano possuem essa magia de fazer-nos acreditar que tudo será diferente e que todos os sonhos serão possíveis. Sentimo-nos poderosos, invulneráveis. Nenhum mal poderá nos atingir.
Entra ano e sai ano, e os que antes comemoravam comigo uma nova etapa, cheia de promessas, há muito descansam em suas tumbas. Espero, que ao sair daqui não carregue mais nada. As lembranças pesam-me, quase me impossibilitando de caminhar. É preciso deixar tudo para trás. É preciso deixar os mortos. Paz! Paz para os mortos.
De alguma forma sei que eles ajudam-me, guiando meus passos. Ensinaram-me que há um jardim a ser cultivado dentro de mim, dentro de cada um de nós. Lembrarei da casa de minha infância como mais uma flor no meu jardim, sem tristeza, sem dor. Uma flor ofertada pelos mortos, uma flor regada por lágrimas, cultivada com trabalho intenso; doces sofrimentos e amor sem fim.
Saio, batendo a porta e o velho portão enferrujado, que reage à minha despedida com um rouco rangido. Digo adeus ao abieiro e a antiga goiabeira tombada no quintal, companheira muda e fiel das muitas travessuras. Digo adeus ao enrugado pé de manga que plantei com minhas mãos, ajudada por meu querido pai, e do resto, despeço-me em silêncio, de coração para coração, e enfim, recomeço minha jornada em direção ao viaduto.

segunda-feira, 26 de maio de 2008


Deus é vida. E a impulsão da vida é para cima, sempre para cima. “O animal sobrepuja a planta, o homem sobrepuja a animalidade, e o conjunto da humanidade, no espaço e no tempo, é um exército imenso a galopar ao lado, à frente e atrás de cada um de nós. Em carga esmagadora para dar em terra com toda resistência e vencer todos os obstáculos”. Até a morte. A corrente da vida sobrevive a morte do indivíduo. Sobrevive à possibilidade do fracasso e a tendência da matéria por aniquilar-se. Ao topar com um beco sem saída, as suas múltiplas energias cavam novo atalho e dirigem as suas torrentes irresistíveis no sentido de novas e maiores realizações. A vida não pode ser sufocada por uma derrota temporária; nunca pode ser detida.

domingo, 25 de maio de 2008

SOB A LUZ DO CREPUSCÚLO


A menina, regando as plantas,
inunda de alegria o crepúsculo que cai.
Seu sorriso, doce antídoto,
para um coração envenenado
por uma taça de tristeza.


***

Dia cinzento.
Cadeiras vazias.
Silêncio no jardim.

***

A rosa que desabrocha
enche de amor e encanto
um coração de criança.

***

A passarada,
na janela faz a festa!
Ao menor ruído,
voa em debandada.


***

Para o silencioso espelho d’água,
a onça sedenta, sorri.


***

Passarinhos na goiabeira.
Entardecer no quintal.
Minha alma sorri.


***

Eu estava quase adormecida
quando escutei o canto da cigarra.

sábado, 24 de maio de 2008

TODO O MANÁ SAGRADO DA MONTANHA


“Olho, aterrado, a grande mesa posta.
Quem presumiu em mim fome tamanha?
Todo o maná sagrado da montanha
Servido lautamente
A um só conviva!
À luz do sol poente,
Numa quase agressiva
Pressa de comunhão, as penedias
São raras iguarias
Dum banquete irreal
De que sou comensal
Apenas eu…
Como se um pigmeu
Pudesse devorar num breve instante
A refeição eterna de um gigante!”
(Miguel Torga)

***

TODO O MANÁ SAGRADO DA MONTANHA é sabedoria, alimento cultivado pelo homem e ofertado aos deuses.
TODO MANÁ SAGRADO DA MONTANHA é esforço consagrado da labuta cotidiana, que sustenta o corpo e alimenta o espírito humano.
O sol já está a se pôr. Com os olhos cansados, voltados da terra ao céu, regressa o miserável de mais um dia de trabalho e eu em minha inconstância, olho a mesa posta mas não corro imediatamente para ela, apavora-me a idéia de tamanha pompa, de tão fausto banquete pára um só vil e nada gentil convidado. Quem adivinhou o tamanho de minha fome?
TODO O MANÁ SAGRADO DA MONTANHA ao alcance de minha mão. Embora seja mesmo grande a minha fome, eu, solitário, não posso dar cabo do alimento sagrado. Pequenino em minha ambição; ando sem direção, silenciosamente, sem saber a que caminho escolher.
Procuro um ser de grande saber, feito de carne e osso, mas que tenha a alma pura e infinita, livre dos desgostos... Daí, quem sabe, possa ele me dizer como escapar do circulo vicioso no qual vivemos todos.
Almejar TODO O MANÁ SAGRADO DA MONTANHA é não tê-lo a disposição para comê-lo afoitamente. Se assim o fizer, os deuses, certamente, não virão ao meu encontro, pois, não terei sabedoria suficiente ou ao menos um conhecimento profundo das coisas como são, e, então como ousarei dizer ao fiel trabalhador que TODO MANÁ SAGRADO DA MONTANHA está também ao seu inteiro dispor para dele poder comer, não num banquete irreal, mas, sim, num banquete ideal, onde o esforço, unido ao tempo, ao momento correto lhe dará muito mais que uma substancial refeição. Dar-lhe-á capacidade em elevar-se às alturas de um gigante, além da paz, sabedoria e tranqüilidade de um ser humano de verdade, pronto a seguir, firme e reto, em sua evolução...

Partiu a caravana dos sonhos.
Não importa o destino, somente a viagem
Pelo caminho os peregrinos misturam-se à poeira e ao brilho das estrelas,
mas eles partem em busca do sol!

***

Dia cinzento!
Gosto dele assim, quando me sento
em uma velha cadeira, no sossego do jardim,
para ouvir cantarem os passarinhos.

***

Voam os pombos no céu. Fim de tarde.
Na rua vazia, o sol deita seus últimos raios.
Alguém sentado à soleira de uma porta... espera!

***

Noite escura!
No telhado
o soluço da chuva.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

JURUPARI [1] O PODEROSO SENHOR DO MEDO


Jurupari passeia pela noite.
Jurupari passeia pelo terreiro.
Jurupari é o poderoso senhor do medo que chega para assustar pequeno guerreiro.
Devagar, a grande sombra entra na oca, escurecendo a taba por inteiro.
Pequeno guerreiro não consegue adormecer.
Jurupari é espírito sem forma.
Jurupari é espírito mau
Mas pequeno guerreiro é valente
E a grande sombra olha de frente
Jurupari se encolhe, pra longe foge, a grande sombra desaparece!
Jurupari, o poderoso senhor do medo, tem medo de pequeno guerreiro, que depois, exausto da cansativa batalha, em paz adormece, iluminado pela vigilante luz da lua.


***

[1] JURUPARI: Do tupi Iuru-Pari que quer dizer boca fechada, mistério, segredo. Entidade tida pelos indígenas como “filho do sol”, o legislador, o gênio da música, temido e respeitado pelos povos da selva, que, porém, com a chegada dos missionários jesuítas foi rebaixado a categoria de “diabo”, o espírito malévolo que rondava a floresta.

Do livro MORONETÁ-Crônicas Manauaras; Virgínia Allan; Editora Valer

quinta-feira, 22 de maio de 2008


Quisera que meus versos fossem leves como a pena e que tivessem a candura das cantigas de roda
Quisera que fossem belos como as noites amenas e que possuíssem
o agradável perfume dos botões de rosa
Quisera ainda poder calar-me Quisera mesmo, meu Deus, nada querer e assim não lamentar-me
dos meus versos que choram.

***

Certa vez, há muito tempo, assistindo a um filme antigo, vi uma ponte que, não sei por que, deu-me a sensação de infinito. Era uma pequena ponte, por onde um casal caminhava, mas, para mim, ficou a impressão de que a ponte nunca acabava.

***

Dormiram os anjos que velavam os sonhos. Esquecida ao pé de alguma nuvem ficou a felicidade embrulhada pra presente.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

TARDE DE DOMINGO


A irritação dominou a minha tarde de Domingo; tarde de Domingo quente e abatida, sem água e sem luz.
Não estou só. Na sala está também um cachorro velho que em seu cochilo inquieto, talvez esteja a sonhar com ilhas perdidas e arcas cheias de ossos.
No quarto, minha mãe; minha sobrinha e minha filha montam um rosário de histórias que enfeitam as horas ociosas.
A tarde vai passando devagar, deixando-me com a desagradável sensação de que não aproveitei o dia.
Lá fora, chama o vendedor de doces, mas, irritada, ignoro estes detalhes que poderiam me fazer feliz!

terça-feira, 20 de maio de 2008

ABANDONO



I

Num sítio abandonado, à beira de um igarapé, sentei-me um dia a meditar. Outrora, aqui havia uma cachoeira, ou será que ainda há? Daqui, eu não ouço nada, nenhum barulho de queda d’água, somente o murmúrio do igarapé, num lento passar.
De minha infância, recordo, quando ficava n’ água a brincar e entre botos e mães d’água, a cachoeira cantava, deixando a meninice voar.
Hoje, em meio aos dejetos no igarapé espalhados, ficam também minhas lembranças. Já não há botos, nem mães d’água; resta apenas um sítio, com um triste igarapé de águas maltratadas; sem cachoeiras, sem poesia, sem nada.

II

Sentada à beira do igarapé, olhava a água correr mansamente. Mansamente passando por entre minhas mãos, brincando por debaixo de meus pés, passando, passando, passando, levando consigo minhas lembranças, não tão antigas, nem mais tão jovens; lembranças que, logo despencariam cachoeira abaixo. Ainda há uma cachoeira? Daqui, não ouço barulho de água caindo.
Quando era pequena, vinha muito aqui. Recordo-me de meu pai, sentado neste mesmo lugar, contando velhas estórias de botos e mães d'água.
Do outro lado da margem está um homem de chapéu. Olha-me de forma curiosa (quem sabe, tentando adivinhar meus pensamentos) talvez seja algum turista que também parou para apreciar a beleza do lugar, pois, apesar de tudo, ainda é belo. Torno a voltar minha atenção para o correr das águas e as lembranças de minha infância. Vejo meu pai, alegre, vir ao meu encontro, falando do tempo em que os encantados habitavam estas águas. Conta-me mais uma estória, desta vez, é sobre uma cidade afundada pelo boto
1!
''E tudo por causa de Dora, caboclinha bonita como nunca se viu. Foi há muito tempo. Aqui, neste mesmo lugar, em que calmamente agora conversamos, existia um pequeno povoado. Isso foi bem antes, porque depois o povoado cresceu e virou cidade; cidade grande: selva dura de asfalto e edifício. Isso foi muito antes! Dora vivia com seus pais. Dá para imaginar, filha, quantas e quantas vezes, ela veio lavar roupa nestas beiras? Cantando e batendo as roupas nas pedras, tomando banho e cantando. O pai de Dora era pescador; pescador dos bons, respeitador das leis da natureza. Já a mãe, era tantinho nervosa. A beleza de Dora deixava-a preocupada. Seu coração de mãe apertava-se sempre que a menina saía para banhar-se ou lavar a roupa, principalmente, depois que Dora havia ficado moça.
Era costume entre os pescadores, nas noites enluaradas, reunirem-se para festejar. Festejavam assim por qualquer coisa, qualquer coisa era motivo para cantar e dançar até o dia amanhecer. Sabe filha, era uma vida feliz, bastante feliz. Como disse, Dora era muito bonita e como toda moça bonita, gostava de freqüentar estas reuniões, a qual, sem pretensão alguma, aquela gente simples, chamava de 'baile', e assim que completasse quinze anos, teria a permissão de seus pais para namorar, e bonita do jeito que era, não lhe faltaria pretendentes. Este dia estava perto e como também era querida por todos, concordaram em dar uma festa com muitos comes e bebes; bandeirolas de papel, música e dança, muita dança!
Finalmente, a bendita noite, tão esperada, chegou. A lua cheia iluminando a escuridão. Que noite bonita filha! Acho que nunca mais haverá uma noite como aquela. O baile começou com o povo numa alegria sem fim. Dançaram a mais não poder. Estava tudo tão animado que não entendiam, porque Dora continuava sentada, afinal, era seu aniversário. Dora, na flor de seus quinze anos, toda de branco, parecia infeliz. Ansiosamente, olhava, para a porta de entrada. Parecia esperar por alguém, alguém que tardava em aparecer. Mas, de repente, seu rosto ilumina-se com um sorriso, e a mãe de Dora, que a essa altura, já se encontrava bastante apreensiva com o desânimo da filha, percebe a mudança. Volta-se para onde a jovem olha com tanto interesse, e o que vê a deixa transtornada e mais ainda, quando Dora levantando-se, vai ao encontro do estranho que acabara de chegar. É um belo homem, moreno, alto, vestido de branco, com um elegante chapéu de panamá
2 na cabeça. Dona Francisquinha, assim se chamava a mãe de Dora, não se engana. Ela sabe quem ele é, e no desespero que lhe assalta, começa a gritar: 'É ele, é ele, o encantado, o excomungado, o maldito, o coisa ruim. Não, ajudem-me, ajudem-me, não deixem que ele leve a minha menina! Minha filha, minha filhinha... Acordem, por favor, acooordem'.
Sai correndo, esbarrando nos casais, que nem dão conta do que está acontecendo. A música, cada vez mais alta, impede que dona Francisquinha se faça ouvir. Ninguém a escuta nem o marido, o pai de Dora, pescador dos bons, respeitador das leis da natureza, parece compreender o que se passa. Continua encostado a um canto, pitando o cigarrinho de palha, indiferente a tudo. O povo está enfeitiçado e dona Francisquinha, isolada em sua aflição, cai, derrotada enquanto Dora, a linda Dora, rodopiando nos braços do estranho, vai, cada vez mais para longe da proteção de sua mãe.
O baile continuou noite adentro, era tão grande o encantamento, tão boa a diversão que ninguém sentiu a terra cedendo; afundando, afundando, afundando, até ser completamente coberta pelas águas. Somente dona Francisquinha, num derradeiro esforço, conseguiu salvar-se e aqui ficou, sem afastar-se dessas margens, sempre à espera de Dora. Porém, Dora não mais voltou. Apenas ele, o maldito, aprecia para fazer troça de dona Francisquinha e ela, tomada de fúria sobre-humana, entrava n'água, e tentava matá-lo, mas ele, o maldito, o excomungado, o coisa ruim, nadando numa velocidade fabulosa, facilmente escapava-lhe. Deitando água pelo furo que há em sua cabeça, era como se gargalhasse daquela que achava que podia enfrentá-lo.
E dona Francisquinha, cansada, nadava de volta às margens, onde se sentava, esperando a noite cair. E quando escurecia, lá embaixo o baile recomeçava, com Dora toda de branco, eternamente na flor de seus quinze anos, dançando nos braços do boto''.
Assim que terminou de contar-me a estória, meu pai me disse: “Filha; preciso ir. Logo será noite, e não é bom que a escuridão te surpreenda aqui sozinha. Dizem que até hoje a cidade submersa festeja a chegada de algum visitante”. Deu-me um beijo e desvaneceu-se na luz dos últimos raios de sol.
Eis que um barulho chama-me de volta à realidade. Na outra margem, o turista de chapéu já não está. De dentro d'água salta um boto brincalhão; espirrando água pelo furo. Engraçado! Parece uma despedida, com se estivesse dizendo-me adeus, como se soubesse que está sem lar; com igarapés e rios poluídos, sem belas cachoeiras e sem velhas estórias.
Por um momento, sinto-me como dona Francisquinha, desesperada por não conseguir salvar o que ama, sentada para sempre nestas margens, esperando o retorno do que não mais podia retornar.
O boto seguiu no rumo da cachoeira, levando consigo meus lugares de infância, o amor de meu pai e as velhas estórias. Lembranças que logo despencariam cachoeira abaixo.
Segui o conselho de meu pai e parti antes do anoitecer, levando nas mãos o chapéu branco que o turista, talvez por distração, deixara cair na água e que o boto em sua brincadeira trouxera para junto de mim. Prestes a entrar no carro, julguei ter ouvido algo; mas, longe, muito longe, parecia música?
E por que não! Quem sabe, fosse somente o recomeço do baile na cidadezinha submersa em que Dora morava, eterna menina-moça, ou então, fosse apenas o suave barulho da cachoeira que, a despeito de tudo, ainda conseguia cantar.


1 boto; (Inia geofrensis-Boto branco); (Steno tucuxi-Boto vermelho); cetáceo delfinídeo do gênero Sotália. Golfinho popular em toda a bacia Amazônica. É também chamado de PIRAIAUARA, ou peixe-cachorro. Contam as lendas que o boto é um doutor em assuntos do coração, gabando-se de ser o pai dos curumins, dos quais não se sabe, com certeza, a descendência. O povo diz que o boto branco é amigo dos náufragos, e que o boto vermelho, ou segundo Jacques Costeau, boto cor de rosa, denominado pelos índios de UIARA (“Senhor das Águas”) é o grande sedutor, aquele que não perdoa moça bonita que anda sozinha pelos barrancos em noites de luar. (Altino Berthier Brasil; Coisas de Boto; pág. 91; Amazônia Legendária; Poesanato, Arte e Cultura).2 panamá: Chapéu leve feito com tiras de folhas de um arbusto semelhante a palmeira.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

BOIÚNA, A SENHORA DAS ÁGUAS


Nos profundos e escuros rios da Bacia Amazônica, repousa a Boiúna, a terrível senhora das águas. A palavra boiúna é de origem tupi e significa “cobra negra”. No aspecto simbólico, a boiúna encarna ambos os princípios, isto é, tanto o masculino quanto o feminino, o bem e o mal, possuindo os mesmos atributos da Cobra-Grande e talvez, por isso mesmo, as duas acabem confundidas em uma só. Segundo o mito Dessana, a cidade de Manaus, como tantas outras foi gerada dentro do ventre da cobra. Na longa viagem que faz, Manaus é a 13ª cidade a sair e se erguer de seu bojo. Vale ressaltar algumas das lendas que desde então, vive no imaginário popular, enriquecendo a cultura e o folclore.
Sobre a Cobra-Grande, existe uma estória de que, há muito tempo, numa certa tribo de nossa terra, vivia uma mulher feia e má; devoradora de carne humana; nutrindo especial interesse por crianças. Quanto mais tenra a carne, mais lhe apetecia o gosto. Assim, a tribo vivia em constante pavor e para acabar com tamanha aflição, resolveram jogá-la no rio para que, dessa forma, morresse afogada. Porém, o astuto Anhangá, o espírito do mal, que tudo faz para enfraquecer e contrariar a vontade dos homens, não a deixou morrer, resgatou-a e casou-se com ela. Juntos tiveram um filho.
Anhangá encantou o menino em cobra para que ele pudesse viver livre nas águas do rio. Mas, eis que o que é pequeno se faz grande e logo o rio não pode mais contê-lo. Os peixes desapareceram, pois a cobra, em busca de comida, os engolira. O rio empobreceu e a cobra faminta, cresceu os olhos para além, emitindo uma luz fosforescente que tudo vasculhava.
Um dia, a mãe da Cobra-Grande morreu e seu ódio e dor foram inimagináveis. De seus olhos, lágrimas não jorraram. Contorcendo-se, disparou em direção ao céu flechas de fogo e desde então, para alivio de todas as nações indígenas, recolheu-se às profundezas das águas, levantando-se de lá somente para anunciar a chegada do verão ou para clarear com a luz dos relâmpagos que chispam de seus olhos em noites de tempestades.
Os ribeirinhos contam que já cansaram de se deparar com ela na forma de embarcação fantasma, vagando perdida pela noite, fazendo um barulho de enlouquecer; os olhos, como dois faróis penetrando a escuridão... Nestas horas, é preciso ter cuidado, pois a encantada engole tudo o que vê pela frente. Transforma-se em qualquer coisa, iludindo os mais desavisados.
Para alguns, a Cobra-Grande seria Tuluperê, uma serpente vermelha e preta; misto de sucuriju e jibóia. Era muito cruel, Tuluperê. Afundava embarcações e comia gente. Tal monstro vivia no rio Paru de Leste, na divisa com o rio Axiki. Certa feita, os índios da nação Wayana, foram pedir ajuda ao Xamã, a fim de matá-la, fato que conseguiram após desferirem nela muitas flechas, porém, ficaram embevecidos com os desenhos de sua pele, guardando-os na memória, os reproduziram depois na arte da cestaria.
O caboclo da região, ora acredita em sina, encantamento que pode vir a ser quebrado; ora acredita que a serpente é a pura encarnação do mal. Sob estas formas temos a estória do jovem Honorato, que seria filho da boiúna com uma índia.
Diz a lenda, que a jovem pariu um casal de gêmeos os quais chamou de Honorato e Maria Caninana, mas a mãe, temendo, na aldeia, pela vida das crianças, pois estas já começavam a apresentar as características dos ofídios, levou-as até às margens de um rio e abandonou-as a própria sorte.
As crianças se criaram, com Honorato tornando-se bom e forte e Maria ficando cada vez mais cruel. Finalmente, Honorato mata Maria e passa a vagar sozinho pela imensidão das águas, à espera que alguém o desencante.
Há uma versão de origem européia, onde Honorato é um jovem sedutor e irresponsável, filho de um português abastado dono de um seringal.
A lenda da Cobra-Grande encontra-se ainda ligada ao aparecimento da noite, quando sua filha, ao casar-se, pede ao marido que vá buscá-la nos domínios de sua mãe, no fundo das águas. Todavia, o moço, encarrega três amigos para cumprirem a delicada missão.
A boiúna entrega-lhes a noite presa dentro de um caroço de tucumã, selado com breu, recomendando-lhes expressamente que de modo algum cedessem a tentação de abri-lo, já que somente sua filha poderia fazê-lo. Os jovens, entretanto, no caminho de volta, encostam o ouvido ao caroço de tucumã e ouvem um barulhinho encantador... é a noite, cantando a sua canção. Não resistindo mais, os rapazes, de comum acordo, fazem fogo e derretem o breu. Rapidamente, a noite foge e como castigo, os três amigos são transformados em macacos.
No folclore, temos ainda M´boy, o deus serpente, filho de Tupã, o grande legislador, governante do mundo, assim acreditavam os índios caiagangues, habitantes das margens do Rio Iguaçu, e o boitatá, que na região Nordeste possui várias outras denominações, tais como: jã-de-la-foice, fogo corredor, baitatá e etc... é um mito quase todo de origem indígena; uma espécie de “cobra de fogo” que vadeia pelos campos, expulsando aqueles que o incendeiam inutilmente. Algumas vezes, o boitatá transforma-se em um grosso madeiro, em brasa viva, que mata os agressores por combustão, podendo até assumir a forma humana, mantendo, entretanto, a luminosidade que lhe é característica.
A Cobra-Grande, de uma forma ou de outra, está presente, enrodilhada desde o principio dos tempos, nos relatos de vários povos, na memória universal.
Esta introdução foi apenas uma breve apreciação do que é possível saber sobre um dentre os vários seres fabulosos, que habitam e instigam a nossa imaginação e aqui, em nossa casa, no seio da floresta, que também é a Casa da Mãe-Cobra, as recordações estão sempre presentes, envolvendo-nos em sonhos, nos preparando e devolvendo-nos ao mundo real.
É sina alegre de criança cabocla, da beira do rio, ouvir os cantos e os contos da floresta; é sina alegre de criança cabocla saber e recordar que antes de habitar a floresta, habitou primeiro o ventre acolhedor da Boiúna, a Mãe-Cobra, geradora de vidas, a nossa negra senhora das águas.


(Nota: Imagem da Cobra Grande desenvolvida para o portal do Pará opaidegua.com, desenhada pelo artista Fernando Brito)

domingo, 18 de maio de 2008



“O Uno permanece; o múltiplo muda e passa; A luz do céu brilha para sempre, as sombras da terra logo se esvaecem; A vida, como uma redoma de vidro multicolorido, tinge o branco esplendor da Eternidade, até que a Morte a faz em pedaços. – Morre, se queres estar junto aquilo que tens procurado! Segue adiante até que tudo desapareça!... Por que hesitar, retroceder, por que se contrair, meu Coração? Há tempos já não tens esperança... Não deixes mais a Vida separar o que a Morte pode reunir”.

(Adonais; Shelley, citado por Sirdar Ikbal Ali Shah, trad. Álvaro de Souza Machado)


*****

Um poema de Shelley para se pensar. A vida segue em frente e devemos deixar morrer todas as coisas, todos os sentimentos, para que o novo possa surgir. Não olhemos a vida, com os olhos do terror, mas sim com os olhos da renovação. Morte/Vida são palavras que vão além do literal e podem ser usadas e avaliadas em várias formas e sentidos. (V.A.)

sábado, 17 de maio de 2008

APENAS UM DETALHE


Um pequeno acidente, mas para mim tomou a proporção de um desastre... Nós, humanos, temos essa mania de transformar tudo em algo medonhamente gigantesco, dramático e o pior, sem saída... Bem, não sei enfim o que aconteceu, só sei que meu leitor de CD não funciona mais, apesar de, aparentemente, o programa não apresentar nenhum problema e o notebook ser novo ainda, nem um ano de uso... Não seria nada demais se as músicas que tinha gravado no computador, um vasto e variado repertório, simplesmente também não houvessem desaparecido sem deixar vestígios. Lá se foram os meus blues na voz do velho Big Bill Broonzy e alguns outros bluesmen de responsa... Na verdade, ter perdido as músicas foi somente um detalhe, um detalhe muiiiiiiiiiito chato, mas é claro que não estou chateada só por causa disso... Recomeçar, seja com o que for ou de que jeito for, é a nossa missão de todo dia, mas levando-se em conta tempo, satisfação e amor pelo que já estava em andamento, recomeçar é uma chateação, além de requerer coragem, esforço, determinação e paciência qualidades, que até tenho, e falo isso sem falsa modéstia, mas, não estou animada para nada, estou numa fase de plena insatisfação e olha que estou falando de um “probleminha”.... Caso a se pensar... se estou agindo assim agora, o que será que farei diante dos “grandes problemas” ou direi, dilemas? Não sei... ou melhor, eu sei, tenho umas regras as quais recorro quando me encontro nesse estado de espírito, regras preciosas que, aliás, já deveria ter assimilado e usado quase que por instinto. Em minha displicência, é fato notório de que talvez esteja de “mal a pior” comigo mesma. Isso me faz lembrar que semana passada, vi um episódio em COLD CASE, uma de minhas séries prediletas, em que um psicopata colecionador assassino pegava suas vitimas, sempre mulheres, e as trancava em um quarto escuro. Estas mulheres tinham um motivo especial para viver: Uma tinha um lindo bebê, a outra uma voz maravilhosa com a qual louvava ao Senhor e a outra, um amor de verdade, daqueles que são pra vida toda, na alegria e na tristeza. O prazer do colecionador psicopata, e assim era o seu método de matar, era justamente tirar dessas mulheres a vontade de viver, tirar delas a fé, a esperança, até o ponto que nem o motivo que, antes, as mantinha presa a vida tivesse mais a menor importância.
Sua primeira vítima, morreu afogada em um poço, quando ele, adolescente, ao passear pela floresta, ouviu pedidos de socorro e foi então que, recusando-se em ajudar, deparou-se com a cena que ele julgou a mais insólita, a mais linda, a mais sublime que já havia visto: Alguém, por total falta de esperança, por decepção, desistindo de viver. Ele ficou ali, à beira do poço, apenas ouvindo e observando, e em vez de ajudar, cuspiu na água, olhando fixamente nos olhos da moça, esboçando no rosto juvenil um sorriso sutil e feliz. Suas duas outras vítimas tiveram a mesma reação. A mãe esqueceu do seu filho; a moça devota esqueceu de seu Deus e mesmo com todas as saídas propositalmente facilitadas, não seria impedida se quisesse fugir, mesmo assim, ela aquiesceu e deixou-se morrer, mas a moça que encontrou seu amor verdadeiro, todo dia recomeçava, na escuridão da cela úmida e infecta, ao som do badalo de um sino que todo dia, as mesmas horas, tocava o refrão de uma canção. Para não morrer de tristeza naquele lugar, a moça se agarrou a poesia desses instantes breves e mágicos, repletos de luz; ao soar do sino ela sabia exatamente o dia e a hora em que estava e acompanhava o badalo com sua voz fraquinha, baixinha, quase um murmúrio... Ela não se perdeu, nem esqueceu o seu amor... encheu de luz a escuridão e todo dia recordava a si mesma, todo dia recomeçava nem que fosse na solidão agonizante de uma espera longa e mortal.
Hummmmm..... depois de ler o que escrevi, eu deveria me “tocar”, não? Recomece, minha senhora, recomece... é tempo ainda... e tens muitos motivos, não citarei cada um, para continuares viva. Enche de luz a escuridão e recomeças a contar a tua própria história, nem que sejas tu, a única ouvinte.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

"PASSOU... PASSARÁ"


Lá estava a velha árvore tombada no chão, as raízes à mostra, folhas espalhadas, e uma flor, tímida, que jamais se tornaria fruto. Os galhos, secos e retorcidos, alguns partidos, davam ao meu velho quintal um aspecto ligeiramente sombrio. O sol já declinava, e o lento cair do escuro da noite ajudavam a dar ao lugar uma maior e triste impressão. Ainda podia-se ver, de forma nítida, as letras A e S gravadas dentro de um coração desenhado no tronco... Meu Deus... há quanto tempo? Os amores vêm.... os amores vão... os amores permanecem... para sempre, há uma eternidade para cada situação. Um aperto no coração, uma saudade doída, sofrida... e a árvore tombada no chão lembrava-me e ao mesmo tempo, me devolvia toda a minha infância e juventude misturada a uma grande dose de desilusão ... mas, a pouca luz do fim de tarde, que insistia em não desvanecer-se, clareou-me o escuro que ameaçava se fazer por dentro de mim e de súbito a calma e a docilidade das coisas que me rodeavam me encheram de compaixão.
O céu continuava branco, de uma brancura incomum, carregado de nuvens, porém a melancolia cedeu a uma ternura sem fim e nem a saudade “não –sei –de –quê”, estranho sentimento, teve o poder de expulsá-la ... Respirei fundo e afastei-me do quintal... logo se fez noite de vez, mas, só do lado de fora... não dentro de mim.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

UMA VELHA SENHORA


Hoje, por uns breves momentos, me esqueci de ti!
Encontrei pela manhã uma velha senhora, antiga vizinha de meus tempos de infância. Perguntou como eu estava, iniciando, deste modo, uma conversação que me provocou alívio, ternura e compaixão.
Ela é uma mulher forte e sábia, tornou-se assim por causa das dificuldades que teve de enfrentar ao longo da vida, para muitas pessoas a vida é realmente difícil, mas, segue em frente, contente de si e do mundo. Possuí uma grande família, porém, sabe que é só, sabe ser só.
Falamos da brevidade da vida, de como ela se apaga num abrir e fechar de olhos.
Foi uma linda manhã, e por uns breves momentos, me esqueci de ti, esqueci de mim!
Alguém que conheço está à morte. Ela sofre nesta linda manhã, ela sofre na beleza da tarde, ela sofre ao cair da noite; está tão magra e não tem mais forças para lidar com a doença que lhe consome, entretanto, ainda se apega a um resto de vida, que aos poucos se esvai, tal qual um relógio de areia que verte seus últimos grãos.
Estava começando a ficar deprimida, quando hoje, logo pela manhã, esta velha senhora me devolveu a irmandade das coisas.
Falamos da vida, da morte, falamos de seu filho morto, de meu pai morto, e de como eles continuam vivos na lembrança; sabemos que estão bem, sabemos com o coração, e por uns breves momentos, me esqueci de ti, esqueci de mim!
Olhei para o céu e pensei que talvez não fosse tão triste morrer num dia lindo tão lindo assim.

terça-feira, 13 de maio de 2008

O SAMBISTA


O sambista e suas roupas coloridas.Cor de céu, cor de mar, cor de melancia partida.A pele negra, retinta, brilha como o sol! Sol negro,
negro sol que a todos aquece com seu calor.
Girando, girando, em passos cadenciados.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

HISTÓRIA ALEGÓRICA-AMOR DE MÃE, AMOR DIVINO [1]


Lá vem Maria, remando em sua canoa para lavar a roupa às margens murmurantes do rio.
Maria não vem só. Traz ao colo o seu bebê, que adormece no doce balanço.
Todo o dia é assim, pois Maria, mãe amorosa, não descuida do menininho.
Chegando à margem, atraca a canoa num velho tronco de árvore, e com paciência começa a labuta.
Por um instante, ela sai da canoa e não percebe que o laço, dado com tanto cuidado no velho tronco, desfaz-se, e aos poucos a canoa se afasta, levando o menino.
Na canoa, o pequeno acorda e olha curioso para o espelho de água escura e ao ver de dentro dela saltar um peixe de escamas brilhantes, tenta pegá-lo com as mãozinhas rechonchudas. Porém, o peixe mágico mergulha de volta para a água e o pequeno, fazendo beiço, mergulha atrás do “brinquedo”.
O menino ainda não sabe nadar e em seu desespero bate os braços e as pernas.
Maria está paralisada!
''Depressa, Maria, acode. A água é forte e para longe leva o teu rebento''.
A canoa, cada vez mais distante, e a criança bem-amada rolando, rolando pela superfície da água. Como ela desejava estar naquela canoa...
''Anda Maria, o tempo passa...''
E Maria, angustiada, se atira dentro d'água; nada, nada, nada! Finalmente, alcança o seu bebê, trazendo-o são e salvo de volta às margens do rio, e então, sentindo-se segura, descobre o seio e o alimenta com seu leite, apertando-o com amor e alívio de encontro ao peito.

***
[1] Inspirado em História Alegórica, Farid ud-Din Attar; O Parlamento dos Pássaros, Attar Editorial .

sábado, 10 de maio de 2008

MÃE


Mãe! Em teu regaço deito minha cabeça, descansando das tarefas de um árduo dia de trabalho. Sim, árduo, pois cada dia é uma batalha travada no campo íntimo de nosso ser e nas ruas da cidade.
Procuro esquecer das dores do mundo, quando ao teu lado me sento para conversar amenidades, saber se vovó passa bem, ou mesmo ainda no ato infantil de apanhar as goiabas maduras, naquele velho pé de goiabeira no fundo do quintal. É! É um velho pé de goiaba que teima em manter-se vivo apesar dos maus tratos do tempo.
Queixo-me muitas vezes de teu mau humor, das preocupações excessivas, e dos resmungos de impaciência quando encontras as coisas fora de lugar, ao falar das incompreensões de teus filhos e do quanto gostarias que fossem diferentes.
Mas, logo tudo passa e aquela mágoa, antes tão doída, transmuda-se numa sensação de paz diante de teu sorriso, e com calma, retomo meu processo de libertação, no qual me ajudas sem saber, talvez até o saibas e finges que não sabes para não me amedrontar e assim eu poder firmar meus passos.
Sou novamente um bebê aprendendo a andar e sinto muito medo, mas quando isso acontece, corro de volta para casa e em teu regaço deito minha cabeça, descansando das tarefas de um árduo dia de trabalho, procurando esquecer das dores do mundo.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

REFLEXÕES DE UMA ALIENIGENA SOBRE O INTRIGANTE COMPORTAMENTO DOS SERES HUMANOS PARTE IV



Bom... me desculpem, mas a velha depressão voltou. As férias na lua não foram o sossego esperado, como antes... Há muito lixo à deriva no espaço (tive que me desviar de uma porção)e há terráqueo e máquinas demais indo para lá e para cá Universo afora, afim de descobrir os seus "mistérios insondáveis". Assim, estou novamente no “olho do furacão”, de volta à Terra, solidária em espírito, já que não posso estar lá, em carne e osso, ao povo de Mianmar, antiga Birmânia, no Sudeste Asiático, conhecida também como “terra dos templos”, que, além da recente devastação provocada pela natureza, sofre ainda o descaso das autoridades, uma junta militar ditatorial desumana, que governa o país e impede que a ajuda das nações estrangeiras chegue ao povo mais rápido, bloqueando o acesso, inclusive de funcionários da ONU - Organizações das Nações Unidas.
Há uma loucura generalizada tomando conta da Terra... pervertendo as mentes, deixando o mundo de pernas para o ar... e a banalidade toma conta de tudo. Por todos os quatro cantos, perigo, guerra, destruição, violência, morte e dor... nem as crianças são poupadas, em nenhum sentido... lágrimas incessantes que descem dos olhos de quem fita o ar, o rio ou o mar... lágrimas incessantes de quem não tem a proteção, nem o consolo dos seus, e que vive inseguro e infeliz dentro de seu próprio lar... realmente algo não vai bem por sobre a superfície do planeta, já disse isso antes, estou sendo repetitiva... Os monstros dizem que não são monstros, pois, aparentemente, sob a aparência humana, invertem situações e expressões, querendo, tentando enganar aos que ainda possuem alguma sanidade e bom senso (como podem ver, nós, os E.Ts, não somos os únicos a recorrerem a este estratagema). Portanto, cuidando com o que você pensa, cuidado com o que você diz, cuidado com quem você anda e principalmente, cuidado, mas muito cuidado mesmo com o que você deseja. Desejos costumam se realizarem das formas mais inesperadas e muitas vezes, de um jeito tão surpreendente, que chegam a deixarem arrependidos aqueles que o desejaram tão ardentemente,pois acabam soando como um castigo, um “karma” a ser pago... um favor a ser cobrado...
Aqui, no lugar onde moro, na vasta e cobiçada, região Amazônica, “celeiro do mundo”, chove muito, chove sem parar... Agora mesmo, por exemplo, está chovendo. De vez em sempre, as casas são arrasadas pelas chuvas torrenciais e as pessoas perdem tudo, até a vida. Embarcações lotadas que navegam pelos rios caudalosos, vão a pique com uma facilidade inacreditável. De uns anos para cá, tais “acidentes” têm sido bastante comuns, o que não deveriam ser. Das noticias do dia a dia, de dez, nove são pura tragédia, sobra uma para te dar algum conforto, assim como a sensação de que nem tudo está perdido, e o sentimento de que o que é bom existe, o “normal” acontece, e o impossível é possível.Como a tocante história do taxista que devolveu a um músico distraído,o seu instrumento, um Stradivarius avaliado em seis milhões de reais, esquecido no assento de seu carro. Infelizmente, estou numa fase em que não consigo apreciar o romantismo das coisas... não vejo graça nem beleza no tamborilar da chuva, não me enche de paz e leveza o pôr do sol, não me enchem de esperanças as boas atitudes... Não pensem que, apesar de mim e desse meu pessimimo, nada está sendo feito a respeito dos problemas humanos... Não... os sábios guardiões, zeladores incansáveis do bem e da evolução consciente que é oferecida ao seres, estão sempre atentos a cada detalhe... Há um chamado para que os humanos olhem e busquem a si mesmo, um chamado que quase sempre é ouvido, mas, propositalmente ignorado pela mioria, seja por descuido, seja por excesso de orgulho ou ignorância. Eu, embora sofra em meu mal-estar costumeiro,ainda assim procuro fazer algo a respeito... Talvez eu deva trocar meus óculos ou então mudar a posição usual pela qual vigio/avisto o planeta. Acho que uma cibercadeira giratória, na verdade, me cairia muito bem...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

DESOLAÇÃO



Guardarei o amor. Guardarei a saudade. Guardarei a dor...
No silêncio da noite, procuro me recompor e diante da tv esqueço-me de você.
O tempo vai passando. As crianças vão crescendo. E eu, aos poucos, vou morrendo...
É necessário que assim seja. Para que o pranto não perdure e o encanto não desvaneça.

***

Na ponta de uma caneta um pálido sentido; do impossível que insiste em ser dito.
Na televisão, as notícias de todo dia. Cansaço. Há no cotidiano um quê de desengano.
A chuva miúda cai lentamente e meus pensamentos se dispersam na estranha quietude de um tedioso fim de tarde.
O silêncio é o morador constante desta casa. Indisponho-me com a vida, mergulhando num louco sentimento de saudade de momentos não vividos.

***

Mas um dia se passa e eu aqui, de pé, à janela do meu quarto. Não há cantos de pássaros; nem de cigarras; não há murmúrio de vento em meio às árvores.
Desolação!
O silêncio que paira sobre a tarde só é cortado pelos arrufos de impaciência do homem que chega e se deita, inconsolável.
Logo a noite cai e então, o simples gesto de fechar a janela, pesa-me imensamente. Por fim a fecho e ela se fecha sobre mim como a tampa de um túmulo e tal qual um moribundo, dirijo-me à cama e deito-me também.

DECISÃO ADIADA


Francisco era um desses homens em cuja mente os bons pensamentos nem sempre fincavam raízes. Possuía um espírito débil, fragilizado por uma infância protegida e ao mesmo tempo, carente do carinho e amor tão necessários que só os pais conseguem dar nessa etapa da vida.
Já homem feito, uma loucura contida, quase imperceptível, se instalara em sua mente, adoecendo-lhe a alma e o coração, cobra enrodilhada, serpente malfazeja... Às vezes, lembrava-se do que dizia seu amigo Gaston sobre a mente: “O processo de funcionamento de nossa mente é ainda um mistério, mas, ouso compará-la a um castelo, devidamente projetado e arranjado para que dele possamos fazer o melhor uso, entretanto, o que fazemos? Ao não entendermos o processo de funcionamento e toda a sua vasta potencialidade; deixamos o castelo desprotegido, à mercê de toda espécie de invasores e sob as mais diversas influências, que acabam por dele se apoderarem, tornando-se então senhores absolutos”.
Bem, Francisco registrou esse modo de pensar, mas decididamente não o entendia. Processos mentais... Gaston e suas metáforas... Francamente, ele, Francisco, estava mais para prisioneiro do castelo do que o único senhor...
E foi assim que um dia, enfrentando a fila quilométrica do supermercado; irritado com a voz anasalada da esnobe atrás dele, teve um pensamento amalucado, para ele e talvez para muitos nem tanto assim, pois pensou naquilo com a naturalidade de quem diz que vai tomar banho ou preparar o jantar.
“Vou acabar com tudo... melhor assim, de hoje não passa... não agüento mais.... todo santo dia é a mesma coisa; as mesmas chateações... a mesma droga de vida... será que existe algo mais além de um dia atrás do outro? Pronto, está decidido, vou fazer isso assim que chegar em casa”....
Quem conhece Francisco (Chico para os íntimos) sabe de sua propensão para o drama... num instante, pronto... para ele uma situação boba vira um caos... um dramalhão...
Tá... conta paga, mercadorias embaladas, dirige-se ao carro. Pra sair do estacionamento... uma novela; pra escapar do trânsito.... uma vida... vida que logo deixaria... “iam ver”... era só chegar em casa... “ia chutar o balde de uma vez”... “mandar tudo pelos ares... pros quintos dos infernos...”
Mau-humorado estaciona o carro; passa pelo porteiro, sussurrando “boa noite” de forma não muito amigável.
Em frente ao apartamento procura a chave da porta no bolso da calça. Por pura falta de praticidade (ou seria preguiça mesmo), ele não a põe no chaveiro do carro, junto às outras... mas, “ah... está aqui... finalmente”.
Uma vez no conforto do lar pensa em como dar cabo de sua existência... “Bem, de qualquer modo, será melhor decidir isso de barriga cheia... é melhor preparar o jantar... daqui a pouco Ana Lúcia chega com as crianças... estarão famintas... mas, o que era mesmo que eu ia fazer?”
Pensando, vai à cozinha, abre o armário e tira uma taça de cristal onde serve o vinho francês, presente de Gaston, em seguida vai à geladeira e tira de lá o peixe que havia deixado de um dia pro outro, descansando em um molho com ervas, sal, limão e azeite de oliva, Francisco adora bancar o gourmet, para um preparo especial, afinal, esta será sua última refeição e “depois Ana Lúcia e as crianças vão adorar”... Quando todos estiverem dormindo, ele porá seu plano em ação... se existir vida após a morte vai sentir tantas saudades.... infelizmente, a vida é assim... eles ficarão bem...
Nisso, o telefone toca (é o Gaston). Ana Lúcia chega com as crianças; o almoço fica pronto e depois de assistirem, todos juntos, um pouco de televisão se preparam pra dormir... Isto feito, Francisco, já de madrugada, resolve fazer o que pensou o dia inteiro... então se levanta e vai até a cozinha beber água; abre a porta do banheiro... espera aí, ainda não havia decidido... “como ia ser? Se enforcar; cortar os pulsos? Enfiar uma faca no peito? Brrrr.... melhor se jogar pela janela...mas eles moram no primeiro andar, subir para o alto do prédio despertaria desconfianças do porteiro ou de qualquer outro que estivesse por ali, fosse chegando de uma farra ou fosse porque estivesse com insônia e Santo Deus... suicida que se preze, não pode ser interrompido... mas, pular?... ele ficaria todo amassado, irreconhecível... não... deve existir uma forma mais elegante”.
Sai do banheiro; vai para sala e espia pela janela... acende um cigarro e pensa... “o dia está quase amanhecendo... Há... já sei... veneno... veneno sim... é a solução ideal, mas qual? Tem que ser um que não provoque dor; quero estar bonito dentro do caixão. Assim que chegar ao escritório, vou fazer uma pesquisa na Internet. É... acho que vai fazer um belo dia... é melhor descansar um pouco antes de sair”.
Não demora muito, toca o despertador. Francisco acorda, vai para o banheiro, faz a barba, toma banho... sai do banheiro; entra no quarto, troca de roupa e segue para a cozinha... mesa do café posta; família reunida... que belo quadro!... Pensa Francisco, que então sorri; Francisco é feliz e ele sabe disso, nesses instantes de plena harmonia, então reconhece que há, na vida, algo mais além de um dia atrás do outro, nem sabe porque havia pensado em suicídio ...
Saem todos. À porta do prédio, Ana Lúcia e as crianças seguem juntas enquanto ele dirige-se só ao seu carro. Naquela bela manhã, fresca e luzidia, o sentimento gratificante é logo substituído pela irritação de um trânsito que não anda...; pedintes nos sinais... e o perigo de ser assaltado ou seqüestrado a qualquer hora, ou pior... assassinado... O inferno e as preocupações que permeiam uma grande cidade recomeçam e elas tomam conta da cabeça de Francisco “Será que Ana Lúcia e as crianças estão bem?”
Pega o celular e tenta ligar, mas logo é perturbado pelo estressado de trás... haja paciência e Francisco, diante do caos nosso de cada dia, é novamente assaltado pela vontade de desistir...
No escritório, atrasado, sobre a mesa, uma pilha de papéis... A pesquisa sobre venenos ficará para mais tarde, porém está decidido de hoje não passa... ainda hoje ele manda tudo pro inferno, inclusive a ele mesmo...
Saiu tarde do escritório... ainda bem que não precisava passar no supermercado... que trânsito caótico... tinha que chegar logo em casa e pesquisar sobre os venenos na Internet ou seria melhor comprar um livro sobre o assunto? Será que preparo frango ou carne? Devia ter perguntado a Ana Lúcia.
Francisco chega a casa pensando em sua pesquisa e no que fazer para o jantar. Irritado, estaciona o carro, dá um “boa noite” arrastado ao porteiro e sobe para o apartamento. Demora a encontrar a chave (estava no bolso de detrás da calça) mal entra, o telefone toca (não era o Gaston) era Ana Lúcia avisando que ia jantar com as crianças na casa da mãe... Pronto... Francisco tem muito tempo para se dedicar à sua pesquisa e fazer o que está há muito querendo fazer... mas é tão bom estar em casa... e agora que tem tempo de sobra, vai, antes, tirar uma soneca... dormiu tão pouco a noite passada... descansado poderá pensar melhor... “vou descansar aqui mesmo no sofá... quando acordar, entro na Internete... não... não .... de qualquer jeito, vou ter que preparar o jantar... acho que será mais fácil dar um pulo na livraria...”

quarta-feira, 7 de maio de 2008

INTELECTUAL?! QUEM?EU?!...



INTELECTUAL... Eis aí uma palavra pela qual não gosto de ser chamada; muito menos, definida. Incomoda-me profundamente. Não sou intelectual, nem literata.... Quando alguém possuidor de um vasto conhecimento ou muito “inteligente” quer elogiar outro alguém, chama-o de INTELECTUAL querendo este dizer com isso, que ele e o “elogiado” estão em um mesmo pé de igualdade em se tratando de inteligência ou os mais diversos interesses, incluído nessa diversidade a leitura como ponto de partida.. Assim, chamar outrem de INTELECTUAL é para o “amigo em questão”, o máximo dos elogios.
Bem, para um melhor esclarecimento, comecemos como começam tantos outros ao escreverem um artigo ou dar a sua opinião sobre qualquer assunto que, para maior efeito, exija-se primeiro uma clara definição, sem complicações... comecemos portanto, pelo dicionário, pejorativamente alcunhado de pai dos burros - e aqui faço uma ressalva; uma alcunha duplamente ofensiva já que para um dicionário (embora não seja uma criatura pensante) ser tachado dessa maneira diminui o seu valor enquanto livro de consultas, e, para quem a ele precisa recorrer, ser chamado de burro por causa disso é muito injusto, posto que nem todos nós somos tão burros assim...
Segundo o dicionário Aurélio; em edição revista e ampliada, INTELECTUAL é palavra originada do latim intellectuale, ou seja, relativo ao intelecto; ou seja, aquele que possui ou é, de modo predominante, predisposto aos dotes de espírito, de inteligência. Entretanto, aquele que se diz INTLECTUAL, aquele que se diz amante das coisas do espírito, nem sempre é um verdadeiro amante das coisas do espírito, nem sempre é simplesmente inteligente, no mais simples sentido da palavra, e nem sempre faz um bom uso dessa tão apregoada inteligência e conhecimento.
Clarice Lispector, uma de nossas maiores, delicadas mas, acima de tudo inteligentes escritoras não se considerava uma intelectual e quando alguém a chamava assim ela costumava dizer que não era não. Sua opinião sobre si mesma não era por modéstia e sim por achar que não fazia uso da inteligência. Usava a intuição, o instinto, mas a inteligência... Para Clarice, em sua crônica INTELECTUAL? NÃO. do livro APRENDENDO A VIVER (2004, Editora Rocco) um INTELECTUAL, em sua concepção, além de saber usar a inteligência, é detentor de uma vasta cultura. E é verdade... mas, às vezes, O INTLECTUAL despeja em cima de nossa ‘ignorância” a sua “vasta cultura” e “profundo conhecimento”, que mais parece uma central de informação, de tudo sem entretanto fazê-lo com a devida aplicação e sapiência, pois, certo é, que nem todo aquele que possui conhecimento possui sabedoria. Um sábio, diferentemente do intelectual, alia a inteligência do intelecto à intuição do espírito e ao instinto, colocando cada um, considerada as devidas proporções e naturezas, em seu devido contexto. Um sábio não precisa ser um intelectual ou disso ser chamado já que sabe empregar com sabedoria a inteligência e o conhecimento que tem. Ele aprendeu com o coração, e é exatamente aquilo que é.
INTELECTUAL? QUEM? EU? Eu não...! E se não sou intelectual, se não sou literata, então, afinal, o quê ou quem sou? Ainda não sei, mas, quero antes de tudo ser como Clarice que, descrita por suas próprias palavras é “uma pessoa que por vezes percebe, uma pessoa que pretende por em palavras um mundo ininteligível e palpável, mas sobretudo ser uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa da vida humana ou animal”.

terça-feira, 6 de maio de 2008


RALO ABAIXO: Um momento de distração.... e lá se foi a vida pelo ralo.

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SOFREGUIDÃO: Sorvia a vida em altas doses e era tanta a pressa, que se engasgou...

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GRAVIDEZ: Estava grávida... de idéias... e seu corpo inteiro, por dentro e por fora, da cabeça aos pés, era só aflição.

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AVULSO: Fez uma grande bola de seus pensamentos e jogou-a na cesta... de lixo.

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SOBRE HOMENS, CRÂNIOS E TIGRES: Do crânio esfacelado salta um tigre faminto.

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VORACIDADE: O mar voraz vomita na praia os restos da refeição indigesta.

segunda-feira, 5 de maio de 2008


Ele podia não saber "como havia chegado até ali", mas eu sabia... Estava cansado da casa vazia, das noites insones, do abandono, da solidão, da loucura generalizada, da repetição dos dias... A indiferença, a desesperança, o desamor e o auto-engano foi o que, então, o levaram até ali, uma longa jornada... Primeiro um passo, depois outro, outro e mais outro... para ele não restava mais nada, apenas o asfalto, lá embaixo, só... às vezes, a vida, para alguns, não é apenas difícil, é extremamente insuportável... Primeiro um passo, depois outro e mais outro e ele, ignorante de tudo, mesmo dos motivos da própria morte, "nem sabia como havia chegado até ali"... mas, eu sabia... Primeiro um passo, depois outro, outro e mais outro...

domingo, 4 de maio de 2008

SOTURNO


KAMIKAZE

Uma certa tristeza no jeito de olhar trai a tranqüilidade que tenta passar. Impossível se controlar o desespero de uma alma sobrecarregada. O odor da bebida, no bafo quente é a dor que sai pelos poros em forma de suor.
Onde dói?
Doem os dentes; doem os olhos; doem os ouvidos; dói a mente...
****
Onde dói?
Dói a garganta; dói o peito; dói o coração; dói o pulmão...
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Onde dói?
Dói a barriga; doem as pernas; doem os braços; doem as mãos; doem os pés...
****
Enfim,
Dói o corpo inteiro; dói a vida; dói a morte; dói a alma; dói o amor; dói a dor; 1;2; 3; inspirar; 1;2; 3; expirar; inspirar;expirar; devagar... para não enlouquecer. Se adiantasse - ou tivesse coragem!? - arrancaria a cabeça; se adiantasse - ou tivesse coragem!? – se faria em pedaços; se adiantasse - ou tivesse coragem !?- lançar-se-ia janela afora e se estatelaria no chão, lá embaixo, feito fruta madura que ninguém mais quer, cujo único e possível destino é apodrecer na solidão.
E uma vez, diante da tragédia consumada, a pergunta que todos se farão (será...?) será a mesma de sempre: “O que foi que aconteceu...!?”.
Como epitáfio, por piedade ou brincadeira, (que importa...;... quem se importa?) apenas uma frase escrita às pressas num velho pedaço de papel: “Aqui jaz um grandíssimo F.D.P. Perdôo a quem disser ou pensar o contrário”.

sábado, 3 de maio de 2008

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-DESEJOS - UM CONTO REGIONAL SOBRE O PODER MALÉFICO DA NEGRA SENHORA DAS ÁGUAS


Todo mundo estranhou o jeito calmo de Raimundo. Era sempre tão nervoso; tão ansioso. Trabalhava duro. Queria ficar rico. De tanta ambição, Raimundo começou a modificar-se. Quem te viu e quem te vê! Largou os amigos e só pensava na realização de seus desejos mundanos: casa bonita com piscina, viagens pro estrangeiro, carro do ano, mulheres e mais mulheres. Por isso é que estranharam quando Raimundo voltou a freqüentar o velho bar do Osmar, onde podia encontrar todos os fins de tarde aqueles que; um dia, começara a esquecer.
Chegou; lépido e festeiro, como quem havia tirado um enorme peso de cima dos ombros. Pediu sua cervejinha com um pratinho de tira-gosto e sentou-se à mesa junto aos outros.
“O que te aconteceu Raimundo. Não era hora de estares trabalhando?”.
“Que trabalho o quê João. Eu agora vivo assim, de cara pra lua ou pro sol. Não quero saber mais de nada. E olha, sabe a tua dívida...?”
“Eu sei Raimundo, que ainda te devo, mas pretendo pagar”...
“Espera, homem! Nem acabei de falar; pois bem, a tua dívida está perdoada. O que eu quero mesmo são meus amigos de volta, tomar as minhas cervejas e apreciar o pôr-do-sol. Enfim, sossego. Quero sossego. Amigos, eu estava à deriva. Não há nada pior que confundir os meios com o fim”.
“Mas, o que é que te deu?” Perguntaram os outros, a uma só voz”.
“Vou contar. Aconteceu algo fora de série comigo, mas ouçam, o acontecido pouco importa já que tudo é passível de acontecer. Importante mesmo é o significado desta aventura que me fez ver a vida com outros olhos. Prestem atenção e vejam se não é coisa de doido”.
“Outro dia, cansado de tanto trabalhar, arrumei minhas tralhas de pesca e sai na pequena lancha que uso para estas ocasiões. Saí meio que sem rumo, adoidado, não pra muito longe. Eu estava começando a ficar acabrunhado. Os negócios; que iam bem, me deixaram ranzinza, pesado, obsessivo e desalentado. Só pensava em fazer dinheiro e me divertir. Sentimentos ruins, mesquinhos, começaram a tomar conta de mim, - tanto é que me esqueci o quanto era bom estar aqui com vocês - mas, acreditem ou não lutava contra isso. Então, larguei tudo naquele dia. Parei a lancha no meio do rio. Acontece que não tive paciência para pescar. Acabei me recostando, puxei o chapéu e tirei uma soneca”.
“Quando acordei, já era tarde, mas me incomodei. Estava tudo calmo demais”.
“A noite caíra e a lua; de bubuia, lançava sobre a escuridão delicados fios de prata”.
Apesar deste quadro magnífico que a natureza me oferecia, tive medo, pois para mim, só havia escuridão; a escuridão da noite; a escuridão da água e a escuridão de meu coração, esta mais tenebrosa e profunda que as outras. Meu Deu como ansiava pelo sol! Súbito um banzeiro leve; depois outro mais forte, e em seguida, o que vi jamais vou esquecer. De dentro d’água uma enorme cobra preta se levantou; seus olhos possuíam uma luz sobrenatural; uma luz amarela; cegante; apavorante. Não acreditei...Eis que diante de mim surgia a Boiúna, com chifre e tudo. Tremia sem parar; nunca tive tanto medo na vida. Em questões de segundo; vi a cobra engolir a lua. Seria mesmo verdade aquilo que estava vendo?; Ou seria apenas um surpreendente sonho maléfico?; Julguei que estava ficando louco, porém, uma segunda ondulação me fez acreditar e subitamente; ela abriu a bocarra e me engoliu também, com lancha e tudo. Fui escorregando garganta abaixo, até, finalmente, perder a consciência”.
Dentro da barriga daquele ser hediondo, dormi o sono da morte, tranqüilo e eterno. Quanto tempo durará a eternidade? Um segundo, uma vida inteira? Não sei dizer; não sei também porque ela me vomitou. Talvez restasse em minha essência algum tempero nocivo para o seu não muito exigente paladar.
Fui lançado no fundo do rio, e quando voltei à superfície, percebi que para salvar minha vida teria que lutar. Foi aí que me lembrei do punhal de prata presente de meu avô, de lâmina mais que afiada. Rezei para as forças não me faltarem. Mas, como acabar com um bicho daquele tamanho?
Aproveitando-se deste ligeiro instante de indecisão, pois vocês todos são testemunhas de que não desenvolvi este mau hábito, a maldita me pegou no seu abraço mortal, senti os ossos estalarem e comecei a gemer de dor. Não conseguia reagir. Entretanto, para minha sorte, ela afrouxou o abraço e rapidamente, puxei o punhal de minha cintura. Estava novamente, bem próximo à sua boca e podia sentir seu hálito quente e pestilento. Um arrepio gelado percorreu minha espinha. Era ela ou eu, e é lógico que optei por mim. Sem vacilar, com a mão segurando firme o cabo do punhal, enterrei-o em sua garganta, em seguida um outro golpe, depois outro, outro, outro e mais outro... Subitamente, os olhos, esbugalhados, voltaram-se para mim; não fugi; não chorei; não temi ficar cego ou ser consumido vivo; por aquela maldita luz. Estava desesperado e queria apenas sobreviver. O silvo lancinante que soltou fez a floresta inteira tremer. Ao longe pude ouvir o revoar de pássaros e os urros dos animais amedrontados. A Boiúna largou-me no mesmo instante e num segundo desapareceu nas profundezas das águas. Do meio do rio, nadei feito um condenado, torcendo para que ela, mais que enfurecida, não retornasse disposta a uma vingança.
Ao alcançar a segurança da margem, caí, exausto de sono e de cansaço. Por fim, sobre esta estranha madrugada desceu nova quietação.
Na manhã seguinte, fui encontrado pelos meus empregados, que acharam que a pesca estava demorando demais. Acordei sentindo uma terrível dor de cabeça. Minha testa estava ferida e na mão ainda segurava o punhal.
Ao meu redor, tudo estava normal outra vez, mas não igual. O banzeiro, provocado pela passagem dos barcos, os botos nadando ao longo do rio, a arara vermelha atravessando o céu, os gritos dos macacos, perdendo-se à distância. Tudo estava normal, mas não igual. Eu havia travado uma batalha e conquistado um troféu, um troféu que eu não poderia levar pra casa para enfeitar a minha sala ou para exibir pros amigos. Era um troféu merecido, resultado de uma guerra particular travada dentro e fora de mim. Isso tudo porque passei, gerara um homem novo, filho do sol e da lua. Um guerreiro com forças suficientes para combater e matar o seu dragão. Acreditem ou não, eu lutara comigo mesmo, lutara contra os pérfidos sentimentos que queriam me possuir. Percebi que tudo aquilo pelo qual ansiava, se não tomasse cuidado!... Meus desejos eram como a grande cobra a me envolverem num abraço mortal. Acreditem ou não, resolvi dar-me uma chance e, graças a Deus, estou aqui, renascido; livre e feliz sob este novo céu, sob este novo sol, sob esta nova lua, bem distante da goela e da barriga escura e fedorenta dos meus desejos mais delirantes. 


Do livro Moronetá-Crõnicas Manauaras, Virgínia Allan, Editora Valer