quinta-feira, 24 de abril de 2008

LUISA


Bem no coração da floresta Amazônica, existe uma cidade cheia de gente, carros, viadutos e prédios cada vez mais altos!
Apesar de tudo, em meio ao caos urbano, ainda se ouve os sons da natureza. E é bem neste lugar, num recanto afastado; que vive Luisa, menina bonita, pequenina, e que por isso mesmo não entende a agitação da vida dos adultos, e nem aquilo a que chamam de ''progresso'', mas, absorve seus impactos.
Luisa, criança ainda, também não entende porque chora nos fins de tarde, mesmo sem querer, ao pôr do sol, ou quando assiste a um filme em que alguém morre no final, ou então quando escuta uma estória, uma música ou a recitação de um poema.
Certa tarde, estando à janela, ouviu cantar o uirapuru, que sorte, vê-lo nem é tão difícil, mas ouvi-lo...
O uirapuru é um pássaro que, segundo as lendas da floresta, canta de tristeza, pois anseia reunir-se ao seu amor. Ele canta a dor da separação.
Luisa ficou quieta, ouvindo a ave, e imaginou no seu cantar uma estória e foi assim que adormeceu e sonhou.
Sonhou que passeava num parque. O dia cinzento, não deixava sair o sol que se escondia por detrás de pesadas nuvens. Uma pontinha de tristeza pairava no ar, e talvez, por isso mesmo, Luisa parou para escutar um lamentoso canto.
''De onde virá?'', perguntou-se. Procurou ao redor, e empoleirado no galho de uma árvore estava um estranho pássaro, que lentamente viu transmudar-se em uma flauta. Por causa do tom queixoso da melodia, a menina soltou um longo suspiro e, desalentada, encaminhou-se para a fonte que adornava o lugar. Naquele momento, nem um sorvete a faria feliz. Olhou-se no espelho d'água como se ele contivesse as respostas a todas as perguntas. A água límpida foi, aos poucos, refletindo o brilho do sol e, então, tudo ficou diferente. O parque revestiu-se de uma beleza especial e tudo e todas as coisas acompanharam a flauta na canção.
Luisa sentiu saudades de casa e, aprumando o corpo, abriu as asas. O vento soprou em seus finos cabelos e ela deixou-se levar; livre, leve...
Voando com as asas do estranho pássaro, partiu em busca do amor, desaparecendo dentro do sol.
De repente, Luisa acordou com a gostosa sensação de que fazia parte da vida. Espreguiçando-se, pensou no sonho. Satisfeita, se levantou, trocou de roupa e saiu. Nem percebeu o estranho pássaro que viera pousar em sua janela, e que dentro de seu quarto havia várias penas espalhadas pelo chão.

Do livro Moronetá-Crõnicas Manauaras;Virgínia Allan, Editora Valer 
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